quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Tá pagando promessa?

Me desculpem por demorar tanto para escrever e obrigado pelos comentários do outro relato.

De Santo Antônio da Platina continuei em direção a Ourinhos. Meu plano era não entrar na cidade e tentar dormir em algum lugar uns quilômetros mais pra frente para chegar até Marília no próximo dia. Como começou a anoitecer antes do que eu tinha previsto decidi ficar em Ourinhos mesmo. Dormi uma noite em um hotelzinho no centro da cidade. De manhã enquanto me preparava para sair encontrei um jornal da cidade que anunciava o VII Festival de Música de Ourinhos que começaria no dia seguinte. Olhei a programação e até fiquei com vontade de assistir, mas ficar tanto tempo parado e pagando hotel não ia dar.

Já estava de saída rumo a Marília quando um motoqueiro encostou do meu lado. Ele tinha reparado na bicicleta carregada e veio me perguntar para onde eu estava indo. Ele me olhou alguns segundos e... "Cara eu te conheço... Léo, o que que você tá fazendo por aqui?" Era o Mário. Mário? Que Mário? Aquele... ele tinha viajado de bicicleta comigo com o Quim o Victor e o Capiaul até Guaraqueçaba no ano passado, e eu nem sabia que ele estava morando em Ourinhos. Fomos almoçar e depois ele me convidou pra ficar uns dias por lá pra conhecer a cidade e curtir o festival de música.

Chegando na casa dele descarreguei a bicicleta e saímos pedalar um pouco pra eu conhecer a região, depois de mais um pneu furado - dessa vez não o meu - voltamos. De noite comemos um churrasquinho com alguns amigos dele. No Domingo assistimos a abertura do Festival de Música, uma apresentação muito boa da Orquestra de Sopros Brasileira. Na segunda feira o Mário ligou pra um jornal de Ourinhos e fui até lá fazer uma entrevista. De noite mais Festival de Música com direito a chorinho e tudo mais. Já tarde da noite enquanto tentavam achar explicações para alguém querer ir de bicicleta até Cuba, Mário cantarolando Belchior surgiu com essa: "Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez no meu guidão".

Ganhei de presente do Mário uma pastinha pra guardar as matérias de jornal, ela foi muito útil pra conseguir um pouso mais pra frente. Queria sair na terça de manhã, como o dia estava feio adiei pra quarta. Quarta também amanheceu chuvosa então acabei saindo só na quinta-feira. Tive o azar de pegar o inverno mais chuvoso de Ourinhos dos últimos 50 anos e a sorte de estar bem acomodado na casa do Mário e da dona Cristina. Foram 5 dias em Ourinhos, 5 dias de boa música, comida na mesa, cama macia e boas conversas.

No caminho entre Ourinhos e Marília não havia nenhuma cidade ou posto de gasolina na beira da estrada, levei umas frutas e um sanduíche para comer. Lá pelas duas da tarde vi um senhor sair de carro de um sítio, parou do meu lado e fez o questionário básico que respondo pelo menos umas 3 vezes ao dia... de onde vens... para onde vais... estás pagando promessa... és doido... ele saiu, andou alguns metros, parou o carro, me chamou e então fez uma pergunta diferente: "Você já almoçou hoje? Não? Então vamos ali na minha casa que eu vou preparar um almoço pra você". Me levou até a casa dele e pediu pra sua mulher esquentar uma comida pra mim. Comi, conversei um pouco com eles, Tirei uma foto com ele a mulher e os dois netos e segui viagem.

Cheguei em Marília às 7:30, foi o dia que mais pedalei até agora, 95km, aos poucos estou me acostumando com o peso da Gaia. Encontrei um ciclista que me disse que uma galera se encontrava pra andar de bicicleta pela cidade toda quinta às 8:00, e talvez alguém podia me dar um pouso. Fui até o local que ele me indicou mas por causa do frio só tinha 4 pessoas. Não dei sorte de conseguir pouso mas os caras me levaram até os Bombeiros. Lembrei que o Mário tinha me dado a idéia de ir no Corpo de Bombeiros pra ver se eles me hospedavam.

Cheguei lá e perguntei se eu podia armar a barraca no gramado, o soldado disse que tinha uma ordem de São Paulo que não era pra deixar ninguém de fora da corporação dormir no quartel, mas ele ia perguntar ao superior mesmo assim. O sargento disse que por ele eu poderia ficar mas tinha que ter autorização do tenente, superior dele. Nesse momento já me falaram pra entrar. Mostrei a pastinha com as matérias de jornal pra ver se os convencia a ajudar um pobre viajante.

Acho que surtiu efeito, logo eles me perguntaram se eu já tinha jantado porque tinha sobrado uma comida lá. Depois da janta a autorização que veio lá dos céus - do superior do superior do superior- caiu sobre mim e eu pude ficar. O sargento Figueiredo, falou que eu não precisava dormir na barraca, que tinha cama lá e eu podia ficar no alojamento dos soldados. Tomei banho e quando saí ainda comi uma pizza com refrigerante que eles pediram. Conversei bastante com o Carlão, o Sargento Figueiredo, um psicólogo gente fina pra caramba. Dormi no alojamento dos sargentos.
De manhã já me chamaram pra tomar café e ainda pude usar a internet pra checar os e-mails. O Fred, o cara da comunicação, ligou pra vários jornais contando sobre a viagem. Depois de um tempo chegou um cara de uma TV de Marília pra fazer uma reportagem comigo, mais um do Diário de Marília e outro do Jornal da Manhã. Depois das reportagens me convidaram pra almoçar lá também. É claro que não recusei. Ainda conversei bastante com o cabo Machado e o Rafael (foto) antes de sair. Gostaria de deixar aqui meus agradecimentos a todos do Corpo de Bombeiros de Marília, onde fui muito bem tratado, e dizer que na minha opinião, apesar de terem seus superiores, vocês são todos pessoas superiores.
Depois de 70 km de estrada ruim cheguei em Lins e fiquei na casa do Daniel e da Ana, pais do Arthur, amigo da faculdade. Lá também fui muito bem recebido, me senti como se estivesse em casa. O Daniel me deu várias dicas de mapas e de logística como dizia ele, achamos um caminho alternativo pra chegar em São José do Rio Preto sem precisar pegar a BR-153, que é muito ruim pra pedalar porque não tem acostamento. Eles me convidaram pra ficar um dia a mais em Lins. Depois de dormir até meio dia comi um almoço muito bom em uma churrascaria da cidade. Daniel me levou até Sabino pra conhecer a região e me mostrar onde eu pegaria a balsa no outro dia. Fui jantar na casa do Paulo, amigo do Arhur, onde assisti a final do vôlei masculino do Pan.
Como a balsa de Sabino até Sales saía todas as horas ímpares eu tinha planejado sair de Lins às 10:00 pra conseguir pegar a balsa das 13:00. Como sempre acabei atrasando e saí só às 10:50, precisava correr pra conseguir fazer os 30km até Sabino. No caminho algumas ladeiras, vento contra muito forte e mais ou menos na metade do caminho percebi que meu pneu traseiro estava furado e esvaziando lentamente. Calculei que se eu parasse pra remendar o pneu não ia dar tempo mesmo, então continuei até onde deu, parei enchi rápido o pneu sem consertar e fui mais um pouco. Naquela luta contra o relógio só me rendi quando faltava 5 minutos pra balsa sair, 3 km pra chegar lá e percebi que o pneu não esvaziava tão lentamente assim e já estava no chão de novo. Não ia dar mesmo. Já exausto do esforço desci da bicicleta, descansei, tomei água, comi o sanduíche que a Ana preparou pra mim e continuei empurrando a bicicleta até a cidade.
Fui até um posto pra arrumar o pneu, fiz 3 remendos e não teve jeito de consertar a câmera, tive que usar a reserva, quando terminei o serviço já era 2:50, tinha que correr pra pegar a balsa das 3:00. Chegei lá ainda uns 3 minutos antes e nada da balsa, fui perguntar pra algumas pessoas que estavam ali perto "Ih, a balsa não veio e nem vai vir hoje não, quando tá ventando forte assim ela não vem porque é perigoso". Pois é, o mesmo vento, contra novamente. O jeito foi montar a barraca ali perto, cozinhar um miojo e esperar até o outro dia. Às 09:00 peguei a tão esperada balsa, apenas 30 minutos de travessia. O operador da balsa veio conversar comigo e tocar violão, o figura tocava violoncelo e cantava em japonês. Segui até São José do Rio Preto, fui no Bombeiro tentar arranjar um pouso mas dessa vez não deu certo, acho que os superiores daqui não são tão superiores quanto os superiores de lá. Depois de uns 10 dias sem gastar nada pra dormir tive que me render a um hotelzinho de rodoviária novamente.


(Link da matéria do Diário de Marília, depois vou escanear o do Jornal da Manhã pra colocar aqui também)
http://www.diariodemarilia.com.br/site/ver_noticia.aspx?CodNoticia=6263

23 comentários:

Barbudo disse...

Nossa Leo, ta cada vez melhor esses teus escrivinhados (da-me uma aula, depos). Gostei muito de historia de superior que são inferiores ja que estes sao superiores. É uma metafora? dizem q assim nao engravida. Legal saber q mesmo com esses quase 5 anos de amizade nao conhecia esse seu lado poético, so conhecia o aventureiro, filosofo, gambiarrento, atletico, micosado, musico, enfim... So ficou uma duvida, vc dormiu na cama do sargento? isso nao pega bem.. Brincadeiras a parte, estou sempre torcendo por vc. Abracos.

João do Caminhão disse...

Saaaalveee guri!!!!!! Que saudades!
Estou de acordo com o nosso barbudo, você até que dá prá escritor...(he he he)
Pelo visto a viajem está indo de vento em popa. Fico feliz por você estar se divertindo e ter tanta gente bacana no caminho. Pena que não pudemos continuar a viajem contigo.
Cheguei no sábado passado da minha escalada no interior do Rio depois de ter quase acabado com minhas forças no granito de Salinas. Cara, você tem que conhecer este lugar!!! 750m de pura diversão e muito perrengue. Temos que dar umas cordadas por lá quando você voltar.
Mas por enquanto aproveite ao máximo as suas pedaladas e cuide bem da minha amiga gaia...
Um grande Abraço

Bia disse...

Enquanto alguns esperam chegar aos 85 anos para entao se arrepender, tu V-I-V-E-S o presente.
Tudo anda tao bem, e agora tenho certeza de que continuara assim, o problema vai ser quando chegar a Venezuela, né? Porque la eles falam espanhol...
"Correria mais riscos, faria mais viagens,
Contemplaria mais entardeceres,
Subiria mais montanhas, nadaria em rios,
Iria a lugares onde nunca estive antes,
Comeria mais doces e menos verduras"

Tenile disse...

Engraçado...mesmo tendo passado mais de 20 anos ao teu lado, tenho a sensação de que esse é o período em que to te conhecendo melhor. Porque quando a gente ta perto só vê os defeitos (esses eu posso listar em segundos!) e claro, alguns talentos escancarados. Mas ler você não tem preço piá, me emociono todas as vezes com essa histórias fantásticas relatadas de forma tão contagiante.
Muito bem mano. E já que tamo aê, vamo aê! Beijo e toda aquela energia positiva pra vc.

Cascão disse...

E ai maluco...muito legal o relato, o mais bacana é ver a camaradagem de algumas pessoas como o senhor q te ofereceu almoço.

qualq coisa grita, se precisar tento arrumar unc contatos no teu caminho
Bjo

Lucas

Thomas disse...

Grande guri!!

Continue com essa força adiante!!!

(Ps: cara de sono hehe; mto legais as fotos!)

Mário Henrique disse...

Fala Léo. Pelo jeito tá tudo mesmo rolando sem problemas. Cuba ta logo alí. Grde Abraço, foi um prazer te receber em Ourinhos. Na próxima eu é que vou estar de passagem... haha! Boa sorte e força aí meu irmão.

Susan disse...

lado micosado?
hohohoooho
q q eu nao to sabendo hein?
leeeeeeo
q delicia a sua viagem!
mtas saudades de vc!
q orgulhoooo!!
se cuida aí!!!
beijao da xuuuuuuu

Anônimo disse...

É isso aí Leo. Força nas pernas e boa pedalada!

"Desse modo os sustentaste 40 anos no deserto; falta nenhuma tiveram; os seus vestidos não se envelheceram, e os seus pés não se incharam" Neemias 9:21

Fernando

Ana Cascardo disse...

Olá Leo!!!
Que aventura!! Quem dera eu tivesse essa coragem... To orgulhosa de você!!
Cuida bem dessa garganta, heim?!
To na torcida e com certeza vou acompanhar toda essa sua viagem!!
Fique com Deus!
Um grande beijo da tia de canto...
Ana Cascardo

Roberta disse...

Oi Léo, que bom saber que tudo está correndo bem. Eu e o Mário estamos torcendo muito por vc. Estou acompanhando o seu blog... adorei a foto hehe.
Bj e Boa viagem.

Daniel disse...

OOO João... Viagem é com G e não com J...

Mas eae Léo, muita chuva ainda?
pelo menos vc não tá passando o frio que tá aqui no sul... táaa loco...

boas pedaladas aí!
abração!

lu*sinha disse...

ah, léo essa viagem tá saindo por encomenda, com direito a chorinho e tudo mais??? que massa!

olha, tem que caprichar na salsa cubana e no merengue, depois quero ver oq vc andou aprendendo! =D

e o contador? não deu certo?
vc está deixando de contar as visitas... ainda existem outras opções, por mail eu te ajudo.

beijocasss, Lu

PS: sobre a dica de português, depende! "a viagem" substantivo é com G e "eles viajam" verbo é com J... heuhauheua (desculpe a intromissão!)

Yuri Bittar disse...

Estamos torcendo por você !

Livia disse...

é Léo, já faz um mês.. até que o "vai passar rápido, vc vai ver" tá funcionando bem!
contemple teus entardeceres meu lindo, que te contemplo bem de pertinho...
beijos e mais beijos doces cheios de saudades!

Alexandre Pimentel (Goiano) disse...

Grande Léo, e a gente te achando louco quando resolveu ir pro nordeste pedalando...
Cara, meus parabéns pela iniciativa (e pelos relatos, estão muito bons!).

Quando for passar por Goiás, se precisar de pouso, avisa (quem sabe vc fala por onde pensa em passar, aí eu vejo o que consigo)... Tenho parentes espalhados pelo estado que certamente te acolherão lá!

Grande abraço!!!
(mail: alexandrepimentell[arroba]yahoo[ponto]com.br

flay disse...

Oi,tudo bom?
Bem...encontrei seu blogger lá no orkut e resolvi dar uma passadinha aqui!Adimito que ir de Curitiba a Cuba em uma bike é loucura,pura loucura mesmo,mas adorei a idéia...quero ser como você quando crescer(huahuahua).Também gosto muito de bike.De vez em quando dou umas passadas aqui,falô?
Bijux

Emanuelle (LELI) disse...

O Bernardho acabou de me passar o blog, tá ótimo e vou entrar sempre. Fui com o busão de medicina pra Natal acho que faz dois anos...Enfim..To aqui na torcida e com certeza ver a sua felicidade escrita quando chegar em Cuba já vai me deixar sentir pelo menos 10% da emoção que gostaria de sentir chegando lá no seu lugar!! (meio confuso isso...)
Beijos e muita luz!

Elton disse...

Leo,
Pensei que um dia iria fazer algo que surpreendesse a todos.
Pensei que seria diferente, que nunca me dobraria às vaidades do mundo, que mostraria às pessoas que precisamos de muito pouco para sermos realmente felizes.
Enfim, pensei em ser um herói!
O tempo passou! Aos poucos o espírito libertário deu lugar ao medo, à insegurança, à mesquinhez! Percebí então que poucos tem a coragem de ser libetários, poucos tem o espírito para serem heróis!
Continue levando consigo, além de sua Magrela, não os seus , mas os nossos sonhos de criança! E quando você finalmente repousar em solo Cubano, saiba que você nos ajudou a enxergar o mundo um pouco melhor doque ele realmente é!

Grande abraço, e muito obrigado!

Andre Martins disse...

aaa

Andre' Martins disse...

Agora funcionou....
Grande Leo,
Vc é um fdp mesmo...passou por Uberlandia, e nem para avisar! Mas espero que vc tenha uma viagem segura e feliz! Se vc voltar pedalando para Curitiba, avise-me que será um prazer te receber em nossa casa. Abracos no Fidel por mim....rsrsrs
santanaandre@hotmail.com (se precisar, passo telefone e endereco por por email)

Victor Gomide disse...

Super Léo!!
Não me surpreenderia em te ver tão bem em cima de uma bike ou descobrindo a vida de uma forma fantástica...Com um coração gigante você chega pra além de Cuba... chega nas pessoas, naqueles que encontra pelo caminho... Aquele Abraço!!!

Anônimo disse...

rsrsrs, encontrei sua estória procurando o horário da balsa de barbosa pois vou de São José do Rio Preto até Marília nessa 5° feira, valeu!
obs: Sou de Black River e hotel de rodoviária é f... aqui.huahuahua
A próxima vez que precisar passar pela cidade manda um email se precisar de alguma coisa.(tanobanho@yahoo.com.br)
Valeu, abraço!