No dia em que saí de Palmas, ganhei meu primeiro patrocínio, por assim dizer. Eu sentei para
De palmas eu pedalei só uns 40km e cheguei até um posto da Polícia Rodoviária onde dormi. Lá fui muito bem recebido, ganhando até um nescau. No outro dia fui até Paraíso do Tocantins, cidade que fica na BR-153, chamada de Belém-Brasília. Minha intenção era pegar uma carona de lá até Belém. Nessa hora a Gaia acabou atrapalhando um pouco, porque na maioria dos caminhões, o baú onde fica a carga é lacrado e eles não podem abrir, por isso não tinha onde colocar a bicicleta. Fiquei 2 dias em um posto de gasolina e nada de carona, resolvi ir até a Rodoviária para ver quanto sairia para ir de ônibus. A passagem não era muito cara e não cobrariam nada a mais pela bicicleta. Como eu queria chegar logo em Belém, e não tinha idéia de quantos dias ainda teria que ficar no posto até conseguir uma carona, resolvi pegar o ônibus que sairia em pouco tempo.
Cheguei em Belém somente no outro dia de manhã. O motivo da minha pressa para chegar lá, era porque eu ia encontrar uma pessoa de quem eu já estava com bastante saudades. A Lívia, minha namorada, chegou 3 dias depois. Ela tirou umas férias 'não programadas' da faculadade e foi me encontrar para que fizessemos juntos a viagem de barco até Manaus.
Ficamos alguns dias em Belém e fomos passar 2 dias na Ilha de Marajó, lugar muito bonito e tranquilo. O plano era ir de Belém até Manaus direto, seriam 5 dias para fazer o percurso. Quando fomos comprar a passagem, porém, só tinha um barco que iria até Santarém, levava 3 dias de viagem e lá era necessário pegar outro barco até Manaus. No final das contas foi uma grande sorte ter feito a viagem dessa maneira, porque, além de ser bem cansativo ficar tantos dias em um barco, ainda tivemos a oportunidade de ficar 2 dias descansando em Alter do Chão, que foi com certeza um dos lugares mais bonitos que eu vi até agora na viagem. Eu não sabia, até então, que praias de rio podem ser tão parecidas com as de mar, eu tive inclusive que provar a água pra ter certeza que não era salgada. De Santarém até Manaus foram mais 2 dias, dessa vez era um barco bem menor e também bem menos confortável.
Em Manaus ficamos mais alguns dias pra conhecer a cidade. Desavisadamente, fizemos até um passeio bem de turista. Fomos ver o encontro das águas do rio Negro e o Solimões e, no mesmo passeio, umas caminhadas pela mata para conhecer as Victórias Régias. Tudo no estilo 'caminhe atrás do guia e não se perca', com direito até a adesivinho colado na camisa para saber quem é do grupo. Tipo gado marcado. Uma vez foi o bastante para nos convencermos de que esse tipo de programa não é a nossa praia. Não mesmo.
A Lívia voltou pra Curitiba e eu ainda recebi a visita da minha mãe, que veio passar uns dias em Manaus. Esse período de substituição da companhia da Gaia foi completamente diferente do resto da viagem, sem dormir em posto de gasolina, sem ter que ficar sem banho às vezes, sem comer miojo quase todo dia. Foram uns bons dias de folga do período de vacas magras. Deu pra descansar bastante. Quando fiquei só novamente eu já estava há mais de 2 semanas sem pedalar. Depois de tanto tempo em ônibus e barco, eu nem me sentia mais um viajante de bicicleta. Começar a pedalar de novo me lembrou um pouco o dia da minha partida.
Saí de Manaus no sábado e cheguei em Boa Vista na outra segunda-feira, foram mais ou menos 700 km, fiquei um dia parado apenas em Presidente Figueiredo, cidade famosa pelas cachoeiras. Na divisa de estado entre Amazonas e Roraima passei pela reserva dos índios Waimiri Atroari. São 120 km de estrada dentro da reserva. No meu mapa havia um aviso: "O tráfego é liberado apenas entre as 06 e as 18 horas. Não pare dentro da reserva."
Eu dormi em um restaurante na estrada uns 20km antes do começo da reserva. Cheguei lá às 09 da manhã. Havia algumas casas de fiscalização da Funai e também de venda de artesanato indígena. Um funcionário do lugar, que no caso era um índio, me parou na entrada. Com um português meio arrastado, ele foi direto ao assunto - "se passa de bicicleta índio mata você". Logo chegou outra funcionária, desta vez não índio. Eu expliquei que estava viajando de bicicleta e só queria passar por ali e continuar... mas também não tanto assim. Ela perguntou se eu tinha pego a autorização em Manaus. Eu não sabia que precisava, afinal, se para passar de carro ou moto não há nenhuma restrição, po
rque de bicicleta seria tão diferente? Ela me perguntou se eu conseguiria percorrer os 120 km até as 6 da tarde, falei que sim, a não ser que tivesse algum problema com a bicicleta. Depois de passar um rádio para algúem, ela me liberou, mas não sem antes me falar as regras da reserva, não parar, não conversar com os índios, não tirar foto, não filmar, não acampar...
Meio que sem perceber, eu estava pedalando num ritmo um pouco acima do normal. A paisagem era belíssima, de toda a viagem esse era com certeza o trecho de mata mais preservada, onde se podia ouvir com mais clareza os sons da floresta; e se podia ver uma infinidade de pássaros, lagartos, antas, pacas e etc. Eu olhava curioso para dentro da mata na esperança de ver um índio, ou talvez uma índia, mas ao mesmo tempo me vinha um certo medo de ver uma flecha vindo na minha direção antes de qualquer outra coisa. Uma frase não me saía da cabeça, "índio mata você". Me dei conta que eu estava realmente meio tenso, pedalando apressado, pensava - "a mulher falou que eu podia passar, mas sabe lá... será que eu não devia ter ouvido o índio, afinal ele era um deles". Depois de uns 30 km pedalados, e em meio a essas indagações e também outras de se eu conseguiria realmente percorrer todo o trecho antes de anoitecer, a mesma moça encosta a camionete da Funai.
- Você não quer pegar uma carona com a gente até o outro lado da reserva? perguntou ela.
Eu percebi que não era bem um convite, não sei se ela conversou com outra pessoa, mas por algum motivo ela mudou de idéia quanto a eu ir pedalando. Aceitei sem discutir. Paramos em um posto de controle, que ficava localizado no meio da reserva, e lá ganhei um almoço junto com os funcionários.
Depois do almoço fui deixado em Jundiá, uma vila na beira da reserva. Por um lado eu estava aliviado, não tinha mais muito o que temer; mas por outro um pouco frustrado, meu lado aventureiro e meio inconsequente queria ter visto o que aconteceria na travessia. Pedalei mais 40km até uma vila chamada Equador. Um pouco antes de chegar lá havia um monumento na latitude 0º, eu estava agora oficialmente no hemisfério norte. Junto a esse monumento tinha uma placa comemorativa sobre a construção da estrada entre Manaus e Boa Vista, e também em homenagem aos militares que morreram nessa empreitada. Algumas horas antes, a moça da Funai me contou um pouco da história daqueles índios e da construção da estrada na década de 60 e 70.
Sob o mote do tão falado progresso do regime militar, essa estrada seria uma das maneiras de levar o 'desenvolvimento' para a região norte. O caminho mais lógico para a futura estrada cruzava uma área indígena, mas claro que isso não era problema para os militares. Contam que na medida que as máquinas iam progredindo selva adentro, quando os operadores chegavam para trabalhar de manhã, encontravam os tratores todos amarrados com cipó, numa inútil tentativa dos índios em conter aqueles 'monstros' que adentravam na floresta destruindo tudo o que eles conheciam. Mais tarde vieram os conflitos com os trabalhadores da estrada. Depois disso o exército entrou em cena para combater as lanças e flechas com balas e bombas. O número de índios Waimiri-Atroari, que era de aproximadamente 2 mil antes desses encontros, ficou reduzido a 374 pessoas em 1987. Hoje em dia eles são em torno 1200. Se fossem colocar o nome dos índios mortos precisaria de um monumento bem maior. Outros dois acontecimentos que afligiram a região indígena foi a instalação de um grande projeto de extração de cassiterita, e a instalação da usina hidrelétrica de Balbina, cuja represa atingiu boa parte do território.
No dia que saí da Vila do Equador aconteceu um encontro não muito agradável. Enquanto eu pedalava, em uma descida - por sorte -, senti um inseto pousar na minha perna. Antes que eu tivesse tempo de tirá-lo senti a picada. A dor começou de leve, achei que era uma daquelas butucas, mas rapidamente a dor se acentuou bastante e eu consegui ver que era um marimbondo, e dos grandes. Foi só quando eu tomei a segunda picada na braço, e vi uma grande quantidade dos malditos me sobrevoando, é que eu percebi o que estava acontecendo. A terceira no pescoço foi a mais doída. Saí numa disparada que, imagino eu, tenha sido digna dos melhores velocistas. Por uma meia hora eu pedalei tão rápido quanto pude e não tive coragem de parar, imaginando estar sendo perseguido. A dor era grande, eu gemia homenageando alternadamente cada uma das minhas picadas. Nos dias que se seguiram eu fiquei, digamos assim, hiperresponsivo. O menor sinal de qualquer coisa que voasse perto de mim já desencadeava uma resposta automática de um "sprint" de uns 100 metros. Depois é que eu olhava pra trás pra ver se era um bicho dos mal-intencionados e se tinha mais de um.
Um dia antes de chegar em Boa Vista, dormi em um posto de gasolina na cidade de Mucajaí. A uns 5 km da cidade me deparei com a ponte do rio Mucajaí, como sempre faço nas pontes, parei e dei uma olhadinha pra baixo. Era muito alta - não dava pra pular. Qual não foi meu espanto quando encontrei 2 garotos que moravam nas rendondezas com calção de banho e se preparando pra pular. Eles me explicaram que tinha uma estrutura de ferro embaixo da ponte que ficava uns 3 ou 4 metros mais baixo do que o corrimão, e eles pulavam de lá. Enquanto conversava com eles, ouço um grito e um barulho de algo caindo na água. Era o terceiro rapaz que já estava nesse lugar mais baixo. Depois de alguns minutos de muita reflexão e indecisão, cheguei a conclusão de que não conseguiria ir embora sem pular daquela ponte. Tirei os sapatos e a camiseta e fui com os outros dois, eles afirmaram que também já haviam pulado algumas vezes. Era um pouco complicado pra descer até aquela estrutura, mas nada impossível. Chegamos lá no ponto exato onde era o pulo. O desafio estava posto. Eu já tinha pulado de alguns lugares até bem altos mas, sem nenhuma dúvida, aquele era maior do que todos os outros. Geralmente quando eu vou pular, eu chego, me certifico que é fundo e vou, mas dessa vez não foi tão simples. Eu queria pular mas as pernas não obedeciam, foram bem uns 20 minutos de hesitação que pareciam uma eternidade. Os outros dois rapazes também não pareciam com mais coragem do que eu. Fiquei na dúvida se eles realmente já tinham pulado dali antes. Ficamos um bom tempo naquela discussão do "se você pular eu pulo", mas claro que ninguém ia primeiro. Um deles resolveu voltar, ficamos só em dois. Alguns minutos depois chegou o outro que tinha pulado na hora em que eu cheguei na ponte. Falei pra ele - "vai lá, se você for eu vou em seguida". Ele foi. Eu fiquei. Minha pernas tremiam mais que vara verde segundo a descrição do outro. Mais uns 10 minutos naquele pula ou não pula, e o cara voltou pra pular novamente. Eu pensei em subir e ir embora, tem uma teoria que depois de um certo tempo olhando pra água, se não pulou não pula mais. O cara foi pela terceira vez, assim que ele caiu na água, não sei como, eu consegui dar o tão temido passo a frente. Na sequência, o movimento involuntário dos braços lembrava um pássaro desengonçado, como quem se arrependeu e quer voltar onde estava. O tempo que tardou pra chegar até a água era enorme, com certeza infinitas vezes mais para quem despenca no ar do que para quem olha aquele corpo cair. Mergulhei na água e retornei a superfície já querendo pular novamente, mesmo sabendo que a primeira vez é sempre a melhor. Pulei mais 3 vezes, duas do mesmo lugar - com direito até a foto - e a última de cima do corrimão, esta me rendeu uma bela dor na sola do pé e no queixo.
Um estudante de medicina da UFRR, que ficou sabendo do blog pela matéria que fizeram da viagem no Correio Braziliense, me mandou um e-mail oferecendo qualquer ajuda que eu precisasse aqui na cidade. Quando liguei pra ele, fiquei sabendo que um professor da medicina queria que eu desse uma palestra para os alunos do primeiro ano, contando minhas experiências. - "Palestra? Mas o que eu iria falar?", conversei com ele e ele me explicou que era mais uma conversa, a turma era pequena - apenas 23 alunos - então era para eu contar um pouco sobre o que eu vi nessa viagem. No dia tinha bem pouca gente. Levei algumas fotos, respondi praticamente às mesmas perguntas de sempre e contei alguns causos. Depois me diverti ao saber que eles teriam que fazer um relatório sobre as coisas que eu falei. Nem me deu muita saudades de voltar às aulas.
Parto amanhã e em 3 dias devo chegar em Santa Helena, já na Venezuela.
De lá serão mais umas 2 ou 3 semanas até chegar ao litoral e depois Caracas.
13 comentários:
Fala seu Leo, como sempre muito legal seus causos. O trofeu vai para os indios assassinos, se duvidar os tais marimbondos foram mandados por eles. Viu como eh dificil pular? as vezes vc quer ir mas o corpo nao obedece, ja passei por situacoes parecidas
mas ainda vou pular do lemanski. Valeu por ter ligado ontem e continue com fe meu grande amigo
Leo!!!
Ja que voce esta a caminho de Caracas vou te mandar o email do meu amigo de la, o nome dele é Luis, o email eh luismata64@hotmail.com. Nao consegui falar direito com ele ainda, mas duvido que ele te recuse abrigo...
Tua matricula deu certo, e voce pegou todas as optativas que queria!!!
Sempre leio tuas estórias! Adoro!
Voce faz falta por aqui, cada vez que vejo uma bike lembro de voce.. hahahahaha
Beijos!!!!
Primo q bom q vc atualizo, tava ficando agoniada aqui... Todo dia eu entro pra ve c vc escreveu alguma coisa... Dai fico relendo as histórias antigas... Essa história dos indios foi muito boa.. e a foto tua pulando da ponte... nem se compara com aquela la de Piçarras q vc pulava e eu ja achava uma locura, hehe.
Boa Viagem ae no hemisfério norte =] Beijos.
dae leo!
Parabens Sr. Palestrante! hehe
Cara... achei mto legal q vc conheceu Manaus (encontro das aguas, floresta amazonica,...) e Presidente Figueiredo (famosas cachoeiras)! Passei por essas duas cidades em 2003 antes de sair "nosso" resultado da Federal!
Vá em frente e sucesso!
Boa-viagem à Venezuela!!
cabeça dura da pôrra. porque q tem se arriscar tanto?
tu não é super homem, negão.
Saudades mano.
Muito massa as histórias e o texto...como sempre.
beijos
cara, aqui é o walace que quer deixar uma mensagem procê (esqueci minha conta de e-mail do google, mas não podia deixar de escrever...)
aqui em casa o browser está "apontado" pro seu blog e invariavelmente quando entro aqui pra alguma atividade perco a hora e a noção do tempo!!! ler seus relatos é, literalmente, um momento de viagem! Nunca deixe de escrever! É um dom e vc tá fazendo por merecê-lo! Parabéns e segue em paz!!! Forte abraço! Walace
velhão,
conheci teu blog hoje, moro em Floripa.
muito legal tudo isso, essa viagem, os textos, parabéns pela coragem de ser livre.
força aí!
abração
Não, não, e eu achando que o Mar adentro tivesse servido pra alguma coisa...
Parabéns pela conquista do hemisfério norte!!! Mas que coragem pular assim para o imprevisto... pensando bem, só a escolha de fazer esta viagem já foi um pulo ao imprevisto e tanto!
Continue com essa força e muita sorte!!!
Leo!!!!
To com o numero do meu amigo de Caracas, já falei com ele, voce tem abrigo garantido!!! ehehehhe
Nao consigo te ligar, teu telefone so da ocupado....
Espero que voce veja o email dele a tempo...
Beijos!!!
Léo,
A forma como vc ama a vida é, de fato, apaixonante! E fazer parte de um pedacinho dessa sua viagem maravilhosa, ver de perto o mundo que não cabe em ti, só fez aumentar minha vontade de você...
dias que com certeza compensaram e fizeram valer todo esse tempo longe - ficamos tão mais próximos..
e momentos especiais demais pra postar qualquer comentário aqui..
segue teu caminho meu lindo (estás hablando español muy bien!), e segue sabendo que te amo ainda mais...
beijos cheios de saudade!
OI Leo
Obrigada pelos momentos de prazer que vc nos permite com seus causos.... há pouco estava lendo suas aventuras em voz alta para meus pais e nos emocionamos como quando lemos um livro de estórias juntos. Meu pai elogia suas narrativas, que segundo ele, estão cada vez melhores.
Eu ía narrando, meu pai percorrendo o trajeto por um mapa e minha mãe se emocionando.....obrigada pelo momento e pela linda viagem que vc nos permite, mesmo que sem a mesma coragem.
Um grande abraço
Marina
vc andou por tumeremo sabe se tem algum garimpo por la por favor de uma reposta meu pai esta desaparecido o no me dele é ELIAS SANTOS COSTA
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