sábado, 22 de setembro de 2007

Eis o Norte

Escrevo de Palmas, Tocantins. Gostaria de ter escrito antes mas nos últimos dias eu me encontrava praticamente incomunicável. Eu estava no Jalapão e lá era bem difícil de encontrar telefone. Internet então ainda não existe por essas bandas.

De Brasília, último lugar onde eu escrevi, segui com destino a Alto Paraíso. A distância entre as duas cidades é de 230 km. O que de carro significaria mais ou menos 3 horas de viagem, para mim foram 3 dias. Alguns podem ver isso como uma desvantagem... levar 3 dias para percorrer uma distância que poderia ser feita em 3 horas... mas eu não vejo dessa maneira. O motivo pelo qual eu viajo de bicicleta é precisamente este. Poder passar devagar o suficiente para acenar para as crianças de olhares curiosos, saber de onde sopra o vento, sentir as inclinações do relevo nas próprias pernas e os caprichos do clima na própria pele e observar a paisagem com toda a calma necessária para realmente ver. Como cantou Cartola: "quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar, eu quero nascer, quero viver". Ou seja quando se vai de bicicleta o que vale mesmo é a jornada e não o destino, mais ou menos assim como a vida.

Nessa primeira noite dormi em uma chácara de um amigo do Joaquim de Brasília. No outro dia acabei saindo só às 5 da tarde e parei às 10 e meia em um armazém de grãos perdido no meio da estrada, longe de qualquer civilização. Como estava ainda naquela fase de retorno às atividades - desde a semana parado em Brasília - me cansei bastante e não estava com muita disposição para armar a barraca. Estendi o saco de dormir em baixo de um telhadinho e deitei ali mesmo. O sol, incidindo diretamente sobre meus olhos, me acordou pontualmente, sem a menor possibilidade de pedir mais dez minutos.

Quando levantei dei de cara com o segurança do lugar. Imaginei que ele fosse me enxotar e já fui me adiantando e dizendo que estava de saída. O sorridente rapaz me ofereceu um café quentinho e ficou conversando comigo enquanto eu comia meu café da manhã. Pedalei o dia todo até anoitecer. Da estrada avistei uma luminosidade ao longe e achei que fosse a cidade de Alto Paraíso. À medida que fui me aproximando vi que era uma luz diferente, mais avermelhada. Andei um pouco mais e vi perfeitamente o contorno do fogo consumindo as montanhas. A cidade ficava bem próxima de onde queimava. Foram 102 km naquele dia para chegar até Alto Paraíso - cidade base para a visitação da Chapada dos Veadeiros. Lá fui procurar o Tom das Ervas, um curandeiro que mexe com plantas medicinais, produz xaropes, tônicos, garrafadas e por aí afora. Eu havia pego o contato dele com um discípulo seu que eu encontrara na estrada alguns dias antes. Não foi difícil achá-lo e ele me deixou dormir lá uma noite.
Como o Tom precisava ir a algum lugar, tive que sair bem cedo e não sabia ao certo qual seria o meu rumo para aquele dia. Fiquei perambulando um pouco pela cidade e parei no centro de atendimento ao turísta para ver se decidia alguma coisa. O lugar ainda estava fechado então tentei em vão dormir mais um pouco em um banco de praça. Logo chegou uma menina com uma mochila nas costas, a Melina. Conversamos um pouco e ela me contou que havia acabado de chegar e só tinha aquele dia para conhecer alguma coisa por lá. Voltaria para Brasília naquela mesma noite. Algum tempo depois chegou o guia. Ele nos explicou os vários passeios que poderiam ser feitos, mas o preço de nenhum deles me apeteceu muito. Para ir até uma cachoeira por exemplo o preço do guia com carro era R$130 a serem divididos pelo grupo. Como estávamos só nós dois seria 65 cada um. A Melina tentou me convencer a ir com ela - mas gastar em algumas horas mais do que eu tenho gasto em uma semana de viagem estava fora dos meus planos. Eu dispensaria esse luxo de guia e aluguel de carro e iria de bicicleta mesmo até algum lugar que tivesse que pagar muito pouco ou nada. Eu fiquei por ali analisando as opções e enquanto isso ela fechou o passeio com o guia. Iria sozinha mesmo. Quando eles estavam já de saída, ela, não sei se por compaixão ou só pela companhia mesmo, me perguntou se eu não queria ir junto. Como ela já tinha pago não faria diferença alguma se mais alguém fosse. Com muito gosto aceitei o convite.

O passeio escolhido foi a cachoeira do Macaquinhos. Ficava a 40 km da cidade. Na verdade eu não sei se teria me animado a pedalar 80 km ida e volta se essa oportunidade não tivesse aparecido. E com certeza teria deixado de conhecer um lugar maravilhoso. Haviam várias cachoeiras e, pra quem gosta – como é definitivamente o meu caso, alguns lugares bem altos para se aventurar a pular na água. Entretanto era necessário confiar na palavra do guia à respeito da “fundura”. Como confiança é fundamental para qualquer relação... fui... e não me arrependi. Tinha também boas vias para escalada onde não precisava de corda porque a água fazia a segurança. Ficamos algumas horas por lá e com muito pesar voltamos para Alto Paraíso.
Eu peguei a bicicleta que havia deixado na casa do guia, e segui rumo São Jorge, onde fica a sede do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Levei bastante mantimentos para poder acampar em algum canto e tentar fugir dos preços de turista. Os primeiros 20 km eram asfaltados, mas os 16 seguintes eram puro pó. Quando eu estava a alguns km da cidade um sujeito que vinha de carro encostou do meu lado e fez as perguntas de praxe, perguntou também onde eu iria dormir quando chegasse a São Jorge. Ele era dono de um albergue lá(dessa vez aqueles da juventude) e me passou os preços: 35 para o albergue e 20 para camping. Acho que ele percebeu pela minha cara que eu queria gastar menos. Ele então ofereceu para eu ficar uma noite de graça. Percorri os últimos km já bem mais tranquilo, sabendo que não precisaria mais caçar lugar pra dormir.

Cheguei na cidade e fui até a Casa da Sucupira, o albergue do René. Conversamos bastante e depois ele estendeu o convite para até o final do feriado. No primeiro dia, 5 de setembro, como o Albergue estava vazio eu dormi no quarto, depois ainda fiquei mais duas noites na barraca. Conheci o Carlos de São Paulo e por 2 dias nós tentamos ir até o parque da Chapada mas não pudemos entrar devido ao incêndio que há vários dias consumia a mata.

Nessa minha andança pelo cerrado já passei por vários incêndios. O fogo parece fazer do ciclo da vida por aqui. É muito interessante ver que em cima do preto do carvão brota o verde das folhas. Fiquei sabendo que praticamente todo ano tem vários desses incêndios. O pessoal daqui fala que é até bom que queime todo ano porque, nos locais que ficam 2 ou 3 anos sem queimar, quando o fogo vem se alastra com muito mais força e acaba com tudo, até as árvores mais altas que geralmente resistem aos incêndios menores. Nesse sentido muitas pessoas aqui põe fogo nas próprias terras como forma de controle. Outras vezes é para fazer pasto para gado mesmo. Infelizmente muitas vezes perde-se o controle e originam-se grandes incêndios como esse que assolava o Parque Nacional. Outro problema é que a cada ano a estação da seca está aumentando e a da chuva diminuindo.

Naquele primeiro dia que eu estava em São Jorge tudo estava bem tranquilo e sereno, praticamente só haviam os habitantes locais e tudo andava na típica calmaria de cidade pequena. Isso somado à beleza natural do lugar faziam um ótimo ambiente para descansar, pensar na vida, contemplar a natureza... Mas de repente era 7 de setembro. E se por um lado o feriado fez desabrochar aqui nesse lugar tão isolado as mais formosas flores do cerrado, por outro lado com elas vieram os mais feios bichos. Com seus tórax bombados e propositadamente expostos, seus carros com som turbinado, tocando música num volume incompatível com a paz coletiva. E por algum motivo, por mais que eu torcesse com todas minhas forças eles nunca tocavam Chico Buarque. Até congestionamento se via na ex-pacata cidade. Resolvi fugir de lá ainda antes do final do feriado. (Aproveito pra deixar aqui um abraço pro João Paulo, René, Carlos e toda galera que eu encontrei lá no camping).

Depois de ter deixado a Gaia descansar por 2 dias voltei até Alto Paraíso e saí em direção ao meu próximo objetivo, o Jalapão. Nesse caminho de 7 dias de pedalada, acampei na praça central de Teresina de Goiás e outra noite em um posto de gasolina em Monte Alegre. No dia 10 cruzei a divisa GO - TO e dormi em Arraias - Agora já oficialmente na região Norte desse Brasilzão.

E quanto mais pro norte eu vou, mais insuportavelmente quente tem ficado. Tem sido necessário evitar ao máximo pedalar perto da hora do almoço. Um dia desses eu fiz a besteira de querer enfrentar o sol. Ao meio dia eu me encontrava no meio de uma estrada entre o nada e o lugar algum. Sombra pra descansar só mesmo em miragens. Parar não era uma opção. Nas descidas, o bafo quente que vinha no rosto era semelhante a quando você se agacha em frente ao fogão e abre o forno para ver se o bolo já está pronto, mas sem o cheirinho bom. Não preciso nem dizer que quando não era descida a coisa ficava consideravelmente pior. Daí era como se eu fosse o bolo - mas meu cheiro também não era bem aquele. Além da temperatura alta, que chegou a marcar 44ºC um dia desses, tem ainda esse problema que a vegetação do cerrado (ou talvez aqui já esteja mais pra sertão) é muito baixa e muitas vezes tem que andar vários quilômetros até encontrar uma sombra "meia-boca" para descansar. A maioria dos rios e córregos que cruzam a estrada ficam secos nessa época do ano. Nesses dias, a água que eu levo na bicicleta acaba ficando numa temperatura que cai indigesta no estômago, como um chá sem açucar e sem gosto. Ou, na verdade, até fica um gostinho, o do plástico da garrafa que fica amolecida parecendo que vai derreter. Por tudo isso, eu tenho pedalado bastante à noite. Como as estradas aqui nessa parte do sul do Tocantins são boas e muito pouco movimentadas, fica bem mais agradável de andar depois que a lua aparece e o sol vai esquentar a água dos ciclistas no outro lado do mundo. Além do que... "não há ó gente ó não luar como esse do sertão".

No dia que saí de Arraias, a pedalada foi particularmente agradável. Comecei às 16:30 e logo nos primeiros quilômetros vi a placa que eu mais gosto: "Atenção: Longo trecho em declive". Anoiteceu pouco depois da descida e a estrada estava quase deserta, de meia em meia hora mais ou menos passava algum carro. Num dado momento eu parei pra descansar e sentei no asfalto, logo passei para uma posição mais confortável, deitei. Devido ao meu cansaço, o asfalto ainda quentinho parecia tão macio quanto a minha tão saudosa cama. E nada melhor do que deitar, pois não é deitado que se vê as estrelas? E como é absurdamente mais estrelado o céu nesses lugares distantes das luzes das cidades. A ausência de qualquer barulho que não o do mato completava o espetáculo. Me dei conta que era melhor tomar o cuidado de não cair no sono, porque se algum carro passasse enquanto eu estivesse dormindo no acostamento, era bem capaz de parar para saber o que estava acontecendo. Afinal, ninguém em "sã" consciência deita na beira da estrada para contemplar as estrelas.

De Arraias segui até Conceição do TO onde dormi em um posto. Estava com preguiça de armar a barraca então tentei dormir na rede mesmo, fiquei insistindo por umas 2 horas até me convencer de que não conseguiria dormir na rede e teria que montar a barraca. De lá fui até Natividade e acabei ficando em um dormitório de R$10. Já fazia uns 40 dias que eu não pagava nada pra dormir, mas 10 reais para ter um chuveiro, cama e café da manhã (leia-se pão com manteiga e nada mais) até que estava bem pago. Quando eu estava de saída, uma moça veio limpar o quarto onde eu havia dormido; nisso, o dono do hotelzinho fala pra ela, "nesse aí nem precisa trocar o lençol, ele só dormiu uma noite mesmo".

De Natividade peguei estrada de terra novamente. Não consegui chegar na próxima cidade então dormi na chácara do "Preto", um cara que eu havia encontrado na estrada algumas horas antes. Ele, já prevendo que eu não conseguiria chegar na cidade naquele dia por causa das subidas e da areia na pista, mas sem querer me desanimar, me explicou certinho como chegar na sua casa, caso fosse necessário. Foi. A estrada estava sofrida o suficiente até para eu reavaliar a necessidade de tudo que eu estava levando. No outro dia deixei algumas coisas de presente para o Preto.

No dia 14 cheguei em Ponte Alta, já na região do Jalapão. Uns 20 quilômetros antes de chegar na cidade, um cara em uma Toyota, motorista da prefeitura da cidade, se solidarizou e me ofereceu uma carona. Nem pensei duas vezes. Quando cheguei, tirei a bicicleta da carroceria e fui procurar um lugar pra dormir. Minha barraca já estava precisando de uma boa lavada então eu não tive muita vontade de dormir nela. Fui procurar uma pousada. Na primeira o preço era 50 reais, quando estava indo procurar outra, o Osvaldo, o cara da Toyota, me encontrou na rua e falou que se eu não me importasse em dormir em casa de gente humilde, poderia ficar na casa dele. Aceitei o convite e fiquei por lá 3 dias.
(Uma das coisas que mais me impressiona e me encanta nessa viagem é a hospitalidade do povo brasileiro. Já perdi as contas do número de pessoas que me ajudaram. Alguns conhecidos, mas na maioria das vezes, completos desconhecidos. Me dão abrigo, refeição ou um copo de água apenas. Outras vezes somente algumas sinceras palavras de apoio e carinho e sempre um acolhedor sorriso no rosto. Não sei se é esse par de rodas com mochilas empilhadas, ou essa contagiosa sensação de liberdade que desperta ou aumenta essa hospitalidade, de qualquer maneira sei que amo cada dia mais esse povo brasileiro.)

Em Ponte Alta dei uma folga para a Gaia, várias pessoas me deram o mesmo conselho de não tentar pedalar nas estradas do Jalapão devido a areia. No meu próprio mapa, havia uma advertência, "As estradas de terra do Jalapão tem trechos arenosos que exigem o uso de veículos 4x4". Depois de sofrer um bocado nas subidas do trecho entre Natividade e Ponte Alta, não foi com muito pesar que fui atrás de uma carona. Eu queria ir até o município de Mateiros, onde tem o fervedouro e algumas cachoeiras, e depois voltaria para Ponte Alta novamente. Acordei cedo e fui andar pela cidade para me informar se alguém estava indo pra Mateiros e poderia me levar junto. Consegui um caminhão que ia para lá às 8:00 da noite. Deixei a bicicleta na casa do Osvaldo e fui. A distância até Mateiros era de 160 km, imaginei que levaria umas 2 horas para chegar. Foram mais de 5, isto porque não atolou nenhuma vez. Estávamos em 4 dentro da cabina. O ventiladorzinho do motorista definitivamente não dava conta do calor que fazia lá dentro. Viajar com as pernas apertadas e revezando quem encostava as costas no banco cansou quase tanto quanto pedalar. Chegamos as 2 da manhã, os outros tomaram seus rumos e eu fiquei dormindo dentro do caminhão.
Assim que o sol surgiu eu fui atrás de um jeito para chegar até o fervedouro, ainda faltavam 30 km. Havia a possibilidade de ir caminhando, mas, com certeza seria a última das minhas opções. Fiquei uma hora na estrada para tentar pegar uma carona e nenhum carro passou. Depois tentei alugar uma moto mas seria muito caro. Saí perguntando para o povo se alguém iria pra lá. Acabei conseguindo uma carona a troco de uma ajudinha para a gasolina. A senhora que me levou estava indo colher capim dourado. Mais uma pequena trilha e eu estava lá. Até então eu não sabia muito bem do que se tratava esse tal fervedouro. Era uma piscina, de água borbulhante e cristalina e fundo de areia, perdida no meio de algumas bananeiras. Nos primeiros passos dentro da piscina não havia nada de diferente, o chão de areia era firme como no mar. Porém, mais alguns passos para frente e revelava-se um poço sem fundo onde se afundava e era imediatamente lançado de volta à superficie. Seria falha qualquer tentativa de expressar a sensação produzida por aquela água quente brotando do chão com pressão suficiente para fazer qualquer coisa flutuar. E isso tudo no meio de uma região quase desértica de tão seca. Ainda caminhei mais uns 10 km até uma pequena cachoeira que ficava próxima do fervedouro, mas, depois daquilo, qualquer cachoeira se tornava banal como uma cachoeira qualquer.
Da cachoeira consegui uma carona de volta até Mateiros com o pessoal da Naturatins, orgão responsável pela preservação ambiental do estado. Eles estavam lá para fiscalizar a colheita do capim dourado, uma espécie de capim que só existe no Jalapão e é utilizada para confecção de artesanato. Nos últimos anos houve uma explosão de procura pelo capim dourado, em consequência, a retirada descontrolada fez diminuir muito a quantidade dessa planta, ficando em risco de extinção. Por isso agora o período de colheita é restrito a determinadas épocas do ano, e agora não era uma delas. Evitei de comentar com os caras sobre a minha carona de algumas horas antes.
Cheguei em Mateiros a tempo de encontrar o mesmo caminhão que tinha me levado até lá, já de saída para voltar a Ponte Alta. Dessa vez não havia lugar na cabina então eu fui em cima da carga. Deitei lá e fiquei confortávelmente instalado entre dois sacos de milho, pernas esticadas, vento no rosto. Ainda fiquei de um jeito que não era necessário nem me segurar em nada. Consegui dormir boa parte da viagem. Fiquei lembrando da ida, o calor, as pernas apertadas, os ombros encolhidos... só me lamentei por não ter ido em cima da carga antes. E ainda por cima, ali no milho, pude me privar de ouvir novamete o CD do Arrocha Hits 2000.
Apesar da minha posição privilegiada a volta foi bem mais longa do que a ida. No meio da noite furou o pneu do caminhão e eles não tinham chave para trocar. No final da estória eu acabei pegando outra carona no meio da estrada, que também atolou e eu tive que ajudar a desatolar e cheguei na cidade só às 2 da tarde, com 20 horas de viagem. Dormi na casa do Osvaldo mais uma noite. O filho dele, de 9 anos, disse que me achou parecido com Jesus Cristo. Por que será? Isso que eu nem tenho olhos azuis (lembrei do Nham-de-Jara, ah se fossem os índios... eu também estaria salvo).
No outro dia fui até Porto Nacional, 135 km pedalados, meu recorde de distância na viagem até agora. Só consegui pedalar tanto assim porque choveu e deu uma refrescada no clima. Nesse dia tive um 'pequeno' furo no pneu dianteiro, ainda bem que eu tinha outro reserva. Depois cheguei em Palmas e cá estou. Fui muito bem recebido na casa do Martins, o cara da carona cujo carro eu ajudei a desatolar.
Até aqui completei 2.536 quilômetros rodados. Hoje fazem dois meses e meio que eu saí de casa. Nesse meu caminho muitas pessoas me perguntam com espanto se eu estou viajando sozinho, "mas não é ruim?", "deve ser bom viajar de bicicleta mas com mais gente", "não bate uma tristeza?" Na verdade nas minhas outras viagens de bicicleta eu estava sempre acompanhado por um ou mais bons amigos, e com certeza todas foram ótimas. Mas não por isso essa tem sido pior. Com certeza há várias situações que seriam muito mais divertidas se tivesse alguém pra rir junto e outras que não seriam tão ruins se tivesse mais alguém pra se ferrar junto. Por outro lado, sei que várias coisas boas que aconteceram, oportunidades que surgiram e percepções que eu tive, foram só porque eu estava só. Vi alguém dizer uma vez que quem viaja em grupo fecha-se no grupo, e quem viaja só abre-se ao mundo. Ambas as situações tem seus prós e contras, mas é certo que engana-se quem pensa que viajar só é estar sozinho no mundo. Acho que é melhor o ponto de vista de estar a sós com o mundo. Além do que, quem tem a companhia da Gaia nunca está só.
Meu destino para os próximos dias vai ser Belém do Pará e depois Manaus. Acabei demorando um pouco mais do que eu tinha previsto para chegar até aqui. Minha intenção é chegar em Cuba em dezembro e antes ainda quero conhecer a Venezuela. Sendo assim, vou tentar de agora em diante pegar caronas onde for possível para dar tempo de pedalar um pouco na terra do Chávez.
Até a próxima...

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domingo, 2 de setembro de 2007

Da Capital Federal

Realmente não tenho conseguido atualizar esta página semanalmente como havia prometido. Além da dificuldade de encontrar um computador para escrever, a preguiça também me impede às vezes. Acho que uma vez a cada 2 semanas é mais possível de ser cumprido.

Se me lembro bem a última vez que eu escrevi foi em Caldas Novas, fiquei 6 dias por lá antes de seguir para Goiânia. A casa do seu Sidiney era muito agradável e o bom humor dele também contribuiu para eu ficar tanto tempo. Foi ótimo para descansar, ler, tocar violão e escrever. Conheci as águas termais. A cidade é famosa por ser a maior estância hidromineral do mundo, com águas que brotam do chão com temperaturas de até 60º C.

A distância entre Caldas e Goiânia é mais ou menos 180km, ou dois dias de pedalada. O Sidiney fez questão que eu ficasse hospedado na casa dele lá em Goiânia então fomos de carro. Fiquei apenas 2 dias na cidade, Sid me levou para conhecer alguns lugares. Conheci o André, pai do Goiano - meu amigo do RS - me informei bastante com ele sobre o roteiro para os próximos dias. Tinha duas opções para chegar até Brasília, o caminho mais curto era 209 km, e se quisesse passar por Pirenópolis, cidade histórica de Goiás, aumentaria em 80 km o percurso. Fiquei sabendo que Pirenópolis é uma cidade bem turística e por isso tudo é muito caro, como não gosto de me sentir explorado e de fazer os programas convencionais de turista resolvi ir pelo caminho mais curto e não passar por lá.

No primeiro dia, depois de mais de uma semana parado, tive que passar por uma fase de readaptação - como o pessoal diz por aqui, "esse trem tá pesado dimais " - não consegui chegar tão longe quanto tinha planejado mas fora isso foi tudo tranquilo. Dormi em um posto de gasolina perto de Anápolis. No meio da noite levei um enorme dum susto quando alguma coisa encostou no meu pé através da tela da barraca, depois do grito vi que era um filhote de gato que estava querendo se esconder do frio na minha barraca. O pobre do gato se assustou mais com o meu susto do que eu com ele, saiu correndo tanto quanto pode e não apareceu mais nas redondezas.

No outro dia, com 85 km pedalados desde Goiânia cheguei em Abadiânia. Eu almocei lá e fiquei parado por um tempo esperando o sol baixar. Passei em uma farmácia para comprar um protetor solar - artigo de primeira necessidade aqui nessas bandas - e depois da conversa corriqueira sobre a viagem com o farmacêutico eu saí e fui procurar um lugar pra me acomodar. Algum tempo depois o rapaz saiu da farmácia e veio falar comigo, ele disse, "já que está por aqui você deveria ir até Pirenópolis, vai encontrar um pessoal gente boa por lá, a cidade é cheia de alternativos" Eu agradeci a dica e fiquei pensando, achei estranho o cara sair da farmácia para vir me falar aquilo, peguei o mapa e vi que teria que desviar bastante; e para ir até lá eu já deveria ter pego outra estrada em Anápolis, que seria mais perto. Mesmo assim por algum motivo que eu não sei bem resolvi mudar os planos e ir até lá.

Desviei o caminho e segui rumo a Pirenópolis. A estrada estava ótima, sem buracos e pouco movimento. Anoiteceu e a lua surgiu. Não estava totalmente cheia, mas iluminava meu caminho de uma forma tão intensa que era desnecessário usar a lanterna. O clima também estava ótimo. Alguns poucos quilômetros antes de chegar em Pirenópolis furou meu pneu traseiro. A noite estava tão agradável que eu nem me incomodei com aquela caminhada ao luar. Empurrei a Gaia até um posto de gasolina dentro da cidade. Como toda cidadezinha turística, há placas de pousadas e passeios por todos os lados. Eu nem quis perguntar preços de hospedagem. Já fazia uns 20 dias que eu não gastava pra dormir e não estava querendo recomeçar naquele dia, além de que cada vez mais eu descubro que há outras alternativas, é só estar aberto que as oportunidades aparecem.

Eu fui comer um espetinho em uma lanchonete ao lado do posto, depois do questionário básico a garçonete me perguntou aonde eu iria dormir. Eu falei que ia ser na barraca mas ainda não sabia aonde iria montá-la. Ela então disse que se eu quisesse poderia dormir no quintal da casa dela. Não precisei mais me preocupar com a minha habitação para aquela noite - estranho essa sensação de nunca saber onde vou dormir até a hora que o sono vem, leva um tempo para se acostumar. Consertei o pneu e fui até a casa da moça, ela continuou trabalhando na lanchonete mas os filhos dela estavam em casa, a Vanessa de 9 anos e o César de 7. Conversei bastante com as crianças, elas quiseram saber para que servia cada coisa que eu levava na minha bicicleta-casa. Dormi cedo e de manhã ainda tomei um café com a Sara e as crianças antes de partir.

Quando eu saí ainda não tinha certeza do meu rumo, eu tinha ouvido falar de uma comunidade alternativa que havia perto da cidade e fiquei com vontade de conhecê-la. Mas não sabia se podia simplesmente aparecer lá e também não sabia onde era. Tinha também a opção de seguir direto para Brasília, mas seria meio frustrante ter aumentado consideravelmente o caminho só para passar pela cidade e não conhecer nada. Eu dei umas voltas pela cidade, almocei, e fui até um lugar para usar a internet e ver se achava mais informações sobre a comunidade. Descobri que poderia fazer uma visita e peguei o endereço. Saí em busca do lugar, ficava 7 km afastado do centro da cidade, várias paradas para pedir informação e outras para descansar depois das subidas íngremes na estrada de terra. A vista muito bonita e a tranquilidade da estrada compensavam o esforço.

Por volta das 3 da tarde cheguei na FRATER. Lá só se ouvia o barulho do rio e dos passarinhos. Passei por uma casa e aparentemente não havia ninguém, outra casa e nenhuma alma viva, na terceira encontrei uma alma viva e muito tranquila, o Ede, o cara que fundou a comunidade em 1984. Conversamos um pouco e ele me explicou que a comunidade passou por várias transformações desde que foi criada, até dois anos atrás eles viviam sem luz e antes ainda as práticas de meditação e o vegetarianismo eram regra para todos. Muita gente passou por lá mas agora moram apenas 9 pessoas. Depois o Ede me levou para conhecer o Rodolfo, o responsável pela hospedagem, um psicólogo uruguaio que também chegou aqui na década de 80. Tomei um limonada e bati um longo papo com ele, sujeito muito interessante - emprestando o termo que ele mesmo usou para falar de mim - sem fronteiras na cabeça. Depois conheci a Ieda e o Raul, o cozinheiro da comunidade. Tomei um banho de rio e fui participar da meditação às 18 horas. Assistimos um filme e fui dormir na casa que eles me emprestaram.

No segundo dia lá o Ede gravou uma entrevista comigo para a rádio comunitária da cidade, onde ele trabalha. Almocei no restaurante da comunidade. Tanto o almoço como a diária custavam 5 reais, mas como eles se solidarizaram com a minha viagem não me cobraram pela hospedagem. À tarde fizemos um som na casa do Ede, entre outras estórias ele contou que conheceu pessoalmente o Raul Seixas, esteve na casa dele no Rio de Janeiro. De noite teve meditação e filme novamente. A casa que eu estava não tinha luz, mas isso não foi muito problema, a lanterna dava conta. O único problema era na hora do banho - que acabava sendo o mais sucinto o possível.

No outro dia arrumei tudo pra sair pela manhã. Me despedi do Ede e passei na casa do Rodolfo para ouvir uma fita. Era um som feito com uma cítara improvisada que ele mesmo construiu a partir de um violão quebrado. Fiquei impressionado com a música e a cítara que ele fez, um conhecimento musical enorme de um cara que nunca estudou música formalmente, aprendeu tudo de ouvido, ouvindo Beatles segundo ele. (coloquei um vídeo de uma música dele mesmo)

O Rodolfo também fez suas viagens e tem muitas estórias pra contar. Certa vez ele estava com alguns amigos em um ônibus em algum lugar do Paraguai. O ônibus quebrou e eles resolveram continuar a viagem a cavalo. Depois de algum tempo eles se perderam na mata, e o Rodolfo ainda conseguiu se perdeu dos demais. Foi parar, sozinho, em um tribo indígena. Os índios pegaram ele e começaram a chamá-lo de "nham-de-jara" ou algo assim. Ele não fazia a menor idéia do que eles estavam falando. Os índios trouxeram uma bacia com água e começaram a lavar os seus pés. Naquele momento ele imaginou que a intenção deles era lavá-lo para depois cozinhá-lo e em seguida comê-lo. Acabou que pra sua sorte o ritual ficou mesmo só na lavagem dos pés. Ele disse que na época o seu visual se assemelhava um pouco com o meu, barba e cabelo comprido. Depois os índios trouxeram um panfleto com a imagem de Jesus Cristo e apontavam para ele e para o papel e repetiam "nham-de-jara", "nham-de-jara". Salvo pelo cristianismo. Ele acabou sendo acolhido pelos índios, viveu lá por 2 anos - por opção própria - e aprendeu a falar um pouco do tupi-guarani. Descobriu que "nham-de-Jara" significava Nosso Senhor. No começo eram vários os pedidos para que ele fizesse algum milagre, depois se convenceram que ele não era mesmo o 'Homem'. Mas como já haviam se entrosado bem, deixaram que ele morasse por lá. Ele conta que a estadia lá foi uma experiência antropológica sem igual.

Além dessa o psicólogo, escritor, músico e padeiro Rodolfo tem vários causos para contar, como atestado de um grande homem, passou maus bocados durante a ditadura militar uruguaia na década de 70. O que mais me admirou nesse sujeito foi a sua coerência, apesar de toda sua experiência e conhecimento ele vive como o mais simples dos homens. Sua renda vem dos pães que faz e vende na cidade. Suas posses se reduzem ao estritamente necessário. Ele brincou que na minha bicicleta eu carregava mais coisas do que tinha em casa. Um cara que nunca perdeu o foco do que realmente importa nessa vida. A certeza de uma vida vivida intensamente, sem preconceitos, ganância ou arrogância. Quando ele vai preencher algum cadastro e lhe perguntam o que ele faz, ele responde: Eu faço pão.

Vale dizer que minha intenção era ficar só um dia, depois aceitei o convite para ficar uma noite, depois duas e acabei ficando quatro dias por conta das conversas com o Rodolfo. Valeu a pena ouvir a dica do farmacêutico. Talvez não era bem esse tipo de programa que ele tinha em mente quando me falou para ir até Pirenópolis, mas eu não consigo imaginar como minha passagem por essa cidade poderia ter sido mais proveitosa.

Saí de lá no domingo e peguei a estrada dos pireneus rumo a Brasília, muito calor, sol e subida pela estrada de terra. No caminho dois carros que passaram por mim ficaram com pena do meu penoso ofício de viajante de bicicleta e me ofereceram refrigerante e água. Dormi no terreno de uma casa em construção próximo a cidade de Cocalzinho. No outro dia cheguei em Brasília. Encontrei um outro cara viajando de bicicleta, ele vinha no sentido contrário do meu. Ficamos conversando por um tempo, ele não falava quase nada de português o jeito foi tentar falar inglês mesmo. Contou que saiu há 2 anos de San Francisco nos EUA, passou pela Austrália, Ásia, Europa, África e agora estava já nos finalmentes, ia descer - ou subir, dependendo do ponto de vista - um pouco até a Argentina e depois subir - ou descer - por Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e América Central para depois chegar em casa novamente. Era um desses caras que querem comprovar com os próprios olhos que o planeta é mesmo redondo. Até fiquei com vontade de um dia fazer isso também... quem sabe.

Passei por Águas Lindas de Goiás, mas não se enganem pelo nome, não há nada de lindo naquelas águas. A cidade é das mais pobres que eu já vi. Uma legião de imigrantes miseráveis que vieram para cá em busca de uma vida melhor e não encontraram. Cidade como tantas outras do entorno de Brasília.

Cheguei em Brasília na segunda-feira e fui muito bem recebido na casa da Marina, uma amiga com quem eu não tinha mais contato há 7 anos - interessante que além de conhecer coisas novas esta viagem também está servindo para retomar velhas amizades. Fiquei 6 dias em Brasília, aproveitei para fazer uma revisão na Gaia, que já gritava por óleo depois de tanto pó, e também para dar um jeito nas minhas roupas que já pediam desesperadamente para serem bem lavadas. Queria deixar aqui meus mais especiais agradecimentos para a Marina e a Luciana, a excelente mãe e cozinheira Vera e o grande contador de estórias e poeta Joaquim, que me incentivou e me ajudou bastante com a minha escrita.





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