sexta-feira, 23 de novembro de 2007

De Venezuela

Escrevo de Ciudad Guayana, também conhecida como Puerto Ordaz, Venezuela. Até aqui foram 4230 km rodados, agora falta pouco, só mais uns 800km até Caracas e de lá tento arranjar um barco que me leve até Havana.

Aos relatos.

Depois de uma semana parado em Boa Vista, resolvi seguir em frente. Pedalei até anoitecer e amarrei minha rede em uma mangueira. Dormi ao lado de uma lanchonete apagada, já longe da civilização. Nos últimos dias eu tenho me acostumado a dormir na rede, é mais fresco e dá menos trabalho do que a barraca. No outro dia pedalei uns 30 km e um cara em uma Pampa encostou e me ofereceu carona. Percorri 150km com ele, poupando um dia de pedalada até a fronteira. Além de ganhar a carona mais um refrigerante e um pastel, conheci uma profissão diferente, a de pampeiro.


O que eles fazem é comprar gasolina na Venezuela e vender em Boa Vista. São 230km da cidade até a fronteira, mas mesmo assim o negócio é bem lucrativo. O litro de gasolina nos postos de Boa Vista custa em torno de R$ 2,50 e na Venezuela sai por mais ou menos R$ 0,07 então os pampeiros compram por esse preço e vendem por uns R$2,00. Mas é claro que o contrabando de gasolina é proibido. É permitido atravessar a fronteira apenas com o conteúdo do tanque, não se pode levar galões a mais. Aí é que entra o motivo de eles serem pampeiros. As antigas Ford Pampa 4x4 vinham de fábrica com tanque duplo, com capacidade de 140 litros. Então se o transporte fosse feito com outro carro qualquer não compensaria, porque a gasolina gasta na ida e na volta é praticamente o que cabe em um tanque normal. E se por acaso alguém aumentar o tanque de um carro qualquer pra fazer o transporte, seria enquadrado como contrabandista, mas no caso da Pampa não tem nada fora da lei. Por isso que centenas de pampas - caindo aos pedaços , diga-se de passagem, mas com tanques duplos - fazem esse trajeto todos os dias. Naturalmente que também é proibido vender gasolina no fundo de quintal em Boa Vista, mas isso já são outros quinhentos...


Parei uma noite em Pacaraima, cidade colada na linha da divisa, e acampei em um Centro Cultural que havia lá. No dia seguinte passei na Polícia Federal para carimbar a saída do Brasil no passaporte e lá encontrei um americano que estava fazendo o caminho inverso do meu. Ele morou 4 anos na Venezuela e agora ia conhecer o Brasil. Conversamos um pouco e ele fez questão de falar e repetir para eu conhecer um vilarejo chamado Paujy, que segundo ele, era um dos lugares mais bonitos de toda a Venezuela. Ele me deu o nome de duas pessoas que poderiam me hospedar lá. Ele foi embora e eu segui meu caminho, algumas poucas viradas no pedal e eu me despedi do Brasil.


Estranho essa coisa de fronteiras, cruza-se uma linha e de repente tudo muda, a língua, o dinheiro, a comida, os costumes, as feições, parece que até a paisagem e o clima também mudaram, porque uns 10 minutos depois de chegar na Venezuela fui presenteado com uma chuva que há dias não vinha.


Pedalei mais alguns quilômetros e cheguei em Santa Helena. Descobri que a cidade que o Americano falou ficava fora do meu caminho, a 80 km para oeste, e depois tinha que voltar pelo mesmo caminho. Fiquei bem na dúvida se ia até lá ou não, seriam 160 km para voltar aonde eu estava. Pensei bem e resolvi ir mesmo assim. Comprei umas comidas e saí de Santa Helena no outro dia. Andei uns 15 km e de repente acabou o asfalto, começou uma estrada de terra com umas subidas tão íngremes que não dava pra pedalar, só empurrando mesmo. Pra ajudar choveu e enlameou tudo. Consegui percorrer só metade do caminho e dormi em uma pequena comunidade indígena. Dessa vez sem ameaças, fui bem recebido. No outro dia, mais 40km, subidas fortes e chuva de novo. Cheguei em Paujy no começo da tarde. Antes de ir procurar os contatos que o americano havia me passado, um cara de bicicleta parou para conversar comigo e me convidou para ficar em sua casa. Ele também já tinha viajado de bicicleta e disse que sempre hospedava os cicloturistas que passavam por lá.


Fiquei 3 dias na casa do Wilfrido. O lugar era realmente muito bonito, e de uma tranquilidade fora do comum. Não havia telefone e a energia elétrica só funcionava das 18 às 21 horas, mas não chegava até a casa onde eu estava. Ele tinha então um painel solar que carregava uma bateria para acender as 2 lâmpadas que havia na casa. Tinha também um som e uma TV com DVD, mas quando ligava a TV a bateria só durava 2 horas, então se o filme durasse mais do que isso ou se acendesse uma lâmpada simultaneamente, só dava pra ver o final no outro dia. Lá em Paujy conheci o Benjamin, um músico que me deu um pouso quando eu voltei pra Santa Helena. Conheci também a Arelis que me convidou para ficar uns dias na casa dela aqui em Puerto Ordaz, onde estou agora.


No caminho de volta, como tinha mais descida, consegui fazer em um dia só. Fiquei mais 2 dias em Santa Helena e segui viagem pela Gran Sabana Venezuelana. Por 4 dias pedalei dentro do Parque Nacional Canaima, a paisagem é lindíssima, tem cachoeiras espalhadas por todo o lado, é nessa região que está localizado o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, com 979 m de queda.


No total, de Santa Helena até aqui foram 8 dias de viagem, não pude comer muito bem porque não havia muitos lugares onde comprar comida, mas a paisagem e o sossego compensavam qualquer coisa. De Eldorado, a primeira cidade depois do Parque Nacional, eu pedalei o dia todo para chegar em Tumeremo. Lá dormi em um posto de gasolina e tive que tomar banho com um balde, porque os postos daqui não tem banheiro - que saudades do Brasil. No outro dia cheguei até El Callao. A estrada estava muito ruim neste trecho, não havia acostamento e o movimento era grande. Para piorar a situação, o mato ao lado da estrada era alto e ficava muito perto da pista, em alguns lugares até dentro da pista, e, como que de propósito, eram arbustos espinhentos, então quando passava um carro muito próximo e me forçava a ir mais para o canto me rendia uns bons arranhões. Eu fiquei com a perna e o braço direito todo dolorido e marcado desses encontros com o mato. De El Callao eu continuei mais um pouco, mas a estrada estava cada vez pior e mais perigosa. Resolvi pegar uma carona, ou "agarrar una cola" como dizem por aqui. Consegui bem fácil uma camionete que me levou até Upata, mais ou menos uns 100km. Lá começava a pista dupla e ficou bem mais tranquilo.

Quando eu ainda estava no Brasil, perto da fronteira, ouvi muitas coisas sobre a Venezuela. Além da gasolina barata e dos comentários sobre o Chávez, ouvi dizer que os venezuelanos não gostavam muito dos brasileiros, que não eram muito hospitaleiros, que a polícia era muito corrupta e quando viam um carro brasileiro sempre paravam e cobravam uma propina para deixá-los seguir em frente. Não sei se por eu estar acompanhado pela Gaia, ou por sorte apenas, mas felizmente eu tive uma visão bem diferente desse país. Quanto à hospitalidade, agora eu estou na casa de uma Venezuelana que nunca tinha me visto antes e me recebeu de bom coração. Além dela e das outras casas que eu fiquei, nenhuma vez me negaram um lugar pra acampar ou um pouco de água. E quanto à polícia, várias vezes me pararam na estrada pra pedir documentos, mas nunca me cobraram nada. Uma certa vez que eu parei para descansar em um posto da polícia rodoviária, vi eles pedirem uma melancia de um caminhão que transportava melancias para deixá-los passar. Alguns instantes depois eles me trouxeram uma fatia de presente. Acho que isso realmente tem a ver com o meu meio de transporte. Acho que é pra compensar os banhos de balde e as subidas empurrando.


No dia que estava chegando aqui em Puerto Ordaz aconteceu outro causo interessante. Parei no acostamento pra descansar um pouco. Eu estava no meio de uma subida, pouco inclinada mas muito longa, daquelas do tipo que quando você está distraído, só vê que está subindo quando percebe que está mais cansado do que deveria estar. Era meio dia e meio e o sol estava forte, eu não havia passado protetor solar quando saí de manhã porque naquela hora o tempo estava nublado. Só fui me lembrar disso quando senti o braço queimando. Procurei nos alforjes alguma coisa pra comer, só tinha mais 2 bolachas e bastante água quente. Comi e fiquei descansando por um tempo e esperando o suor secar para passar o protetor. De repente eu ouço umas buzinas e vejo uma camionete velha dando ré em plena estrada movimentada - pensei comigo: "O que que esse animal está fazendo?" Ele voltou de ré por uns 100 metros e parou bem perto de mim. Desceu e veio andando na minha direção. Ele trazia uma caixa com duas bananas, duas ameixas, uma maça, uma tangerina e mais uma caixa de suco. Me entregou tudo. Ele não quis saber de onde eu vinha, para onde eu ia, nada. Me entregou as frutas, me desejou "suerte" e se foi. Mesmo sem entender muito bem o que havia acontecido, eu comi todas aquelas frutas de uma só vez com um sorriso largo no rosto, fazia dias que eu não tinha um almoço tão saboroso. As frutas estavam ótimas, e... o suco de maça... é um capítulo a parte.


Ele estava gelado. Descia pela garganta de uma forma impossível de descrever, não é como tomar um suco que estava na geladeira de casa, ou mesmo um suco feito na hora em uma lanchonete, por mais saboroso que seja. Era uma sensação completamente diferente, infinitas vezes melhor. Aquele suco tinha um quê de especial. O sol estava quente. Ele estava gelado. E eu, estava na beira de uma estrada. Não havia por perto nenhum lugar onde eu poderia comprar um suco - gelado - mesmo que tivesse todo o dinheiro do mundo. Eu estava sentado descansando sob a sombra de uma árvore, e aconteceu o inimaginável... chegou até mim um suco - gelado. Era um milagre, um presente divino, trazido por um mensageiro sob uma chuva de buzinas. E o presenteado era eu... Eu. Me senti o mais especial dos homens, digno de receber uma dádiva dessa magnitude, um suco delicioso - e gelado.

Algumas horas depois cheguei na cidade. Estava procurando a casa da Arelis quando encontrei um brasileiro no sinaleiro. Ele parou o carro do meu lado e rapidamente me fez as perguntas de sempre, mas era um pouco diferente do que o de costume, não tinha aquele ar de espanto e curiosidade, mas um tom de indignação e agressividade, como se de alguma forma eu o ofendesse com a minha estória. Depois, já quase com raiva e num tom de deboche ele me perguntou: "Mas... e o que que ganha com isso?" Na verdade não foi a primeira vez que me fizeram essa pergunta, e nesse tom, já tinha acontecido uma vez ou duas. E nessas vezes eu não pude deixar de perceber uma certa amargura no rosto dessas pessoas, e pensar que talvez sejam pessoas com quem a vida não foi muito complacente.

Pensei em responder pra ele que ganha fugir da mediocridade que a vida pode se tornar, ganha conhecer lugares, culturas, línguas, pessoas, realidades diferentes; aprender coisas que antes nem pensava possíveis, fazer amigos, se sentir parte da natureza, respirar ar puro, fazer exercícios diariamente, conhecer a si mesmo, aprender que precisamos de muito pouco para ser felizes, e que as melhores coisas da vida não custam nada... Pensei em dizer tudo isso pra ele, mas era uma conversa muito longa e talvez ele não estivesse disposto a compreender nada disso. Além do mais o sinal já ia abrir. Então respondi: ganha melancia, outras frutas e suco gelado.

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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Encontros

Primeiro de tudo, sinto muito por ter ficado tanto tempo sem escrever.

No dia em que saí de Palmas, ganhei meu primeiro patrocínio, por assim dizer. Eu sentei para almoçar em um restaurante, e comecei a conversar com um senhor que estava lá esperando a comida. Ele me perguntou de onde eu vinha, para onde eu ia, como de costume. Me passou também umas dicas da Venezuela. Depois ele me perguntou - "mas... você tá maquinado?" eu entendi que ele estava perguntando se eu andava armado ou algo assim e respondi que não. Ele então tira uma nota de 20 reais e põe em cima da minha mesa: “uma ajuda pra sua viagem”. Acho que ele estava perguntando se eu tinha dinheiro. De qualquer forma, não quis recusar a ajuda, me rendeu dois bons almoços.

De palmas eu pedalei só uns 40km e cheguei até um posto da Polícia Rodoviária onde dormi. Lá fui muito bem recebido, ganhando até um nescau. No outro dia fui até Paraíso do Tocantins, cidade que fica na BR-153, chamada de Belém-Brasília. Minha intenção era pegar uma carona de lá até Belém. Nessa hora a Gaia acabou atrapalhando um pouco, porque na maioria dos caminhões, o baú onde fica a carga é lacrado e eles não podem abrir, por isso não tinha onde colocar a bicicleta. Fiquei 2 dias em um posto de gasolina e nada de carona, resolvi ir até a Rodoviária para ver quanto sairia para ir de ônibus. A passagem não era muito cara e não cobrariam nada a mais pela bicicleta. Como eu queria chegar logo em Belém, e não tinha idéia de quantos dias ainda teria que ficar no posto até conseguir uma carona, resolvi pegar o ônibus que sairia em pouco tempo.

Cheguei em Belém somente no outro dia de manhã. O motivo da minha pressa para chegar lá, era porque eu ia encontrar uma pessoa de quem eu já estava com bastante saudades. A Lívia, minha namorada, chegou 3 dias depois. Ela tirou umas férias 'não programadas' da faculadade e foi me encontrar para que fizessemos juntos a viagem de barco até Manaus.

Ficamos alguns dias em Belém e fomos passar 2 dias na Ilha de Marajó, lugar muito bonito e tranquilo. O plano era ir de Belém até Manaus direto, seriam 5 dias para fazer o percurso. Quando fomos comprar a passagem, porém, só tinha um barco que iria até Santarém, levava 3 dias de viagem e lá era necessário pegar outro barco até Manaus. No final das contas foi uma grande sorte ter feito a viagem dessa maneira, porque, além de ser bem cansativo ficar tantos dias em um barco, ainda tivemos a oportunidade de ficar 2 dias descansando em Alter do Chão, que foi com certeza um dos lugares mais bonitos que eu vi até agora na viagem. Eu não sabia, até então, que praias de rio podem ser tão parecidas com as de mar, eu tive inclusive que provar a água pra ter certeza que não era salgada. De Santarém até Manaus foram mais 2 dias, dessa vez era um barco bem menor e também bem menos confortável.

Em Manaus ficamos mais alguns dias pra conhecer a cidade. Desavisadamente, fizemos até um passeio bem de turista. Fomos ver o encontro das águas do rio Negro e o Solimões e, no mesmo passeio, umas caminhadas pela mata para conhecer as Victórias Régias. Tudo no estilo 'caminhe atrás do guia e não se perca', com direito até a adesivinho colado na camisa para saber quem é do grupo. Tipo gado marcado. Uma vez foi o bastante para nos convencermos de que esse tipo de programa não é a nossa praia. Não mesmo.

A Lívia voltou pra Curitiba e eu ainda recebi a visita da minha mãe, que veio passar uns dias em Manaus. Esse período de substituição da companhia da Gaia foi completamente diferente do resto da viagem, sem dormir em posto de gasolina, sem ter que ficar sem banho às vezes, sem comer miojo quase todo dia. Foram uns bons dias de folga do período de vacas magras. Deu pra descansar bastante. Quando fiquei só novamente eu já estava há mais de 2 semanas sem pedalar. Depois de tanto tempo em ônibus e barco, eu nem me sentia mais um viajante de bicicleta. Começar a pedalar de novo me lembrou um pouco o dia da minha partida.

Saí de Manaus no sábado e cheguei em Boa Vista na outra segunda-feira, foram mais ou menos 700 km, fiquei um dia parado apenas em Presidente Figueiredo, cidade famosa pelas cachoeiras. Na divisa de estado entre Amazonas e Roraima passei pela reserva dos índios Waimiri Atroari. São 120 km de estrada dentro da reserva. No meu mapa havia um aviso: "O tráfego é liberado apenas entre as 06 e as 18 horas. Não pare dentro da reserva."

Eu dormi em um restaurante na estrada uns 20km antes do começo da reserva. Cheguei lá às 09 da manhã. Havia algumas casas de fiscalização da Funai e também de venda de artesanato indígena. Um funcionário do lugar, que no caso era um índio, me parou na entrada. Com um português meio arrastado, ele foi direto ao assunto - "se passa de bicicleta índio mata você". Logo chegou outra funcionária, desta vez não índio. Eu expliquei que estava viajando de bicicleta e só queria passar por ali e continuar... mas também não tanto assim. Ela perguntou se eu tinha pego a autorização em Manaus. Eu não sabia que precisava, afinal, se para passar de carro ou moto não há nenhuma restrição, porque de bicicleta seria tão diferente? Ela me perguntou se eu conseguiria percorrer os 120 km até as 6 da tarde, falei que sim, a não ser que tivesse algum problema com a bicicleta. Depois de passar um rádio para algúem, ela me liberou, mas não sem antes me falar as regras da reserva, não parar, não conversar com os índios, não tirar foto, não filmar, não acampar...


Meio que sem perceber, eu estava pedalando num ritmo um pouco acima do normal. A paisagem era belíssima, de toda a viagem esse era com certeza o trecho de mata mais preservada, onde se podia ouvir com mais clareza os sons da floresta; e se podia ver uma infinidade de pássaros, lagartos, antas, pacas e etc. Eu olhava curioso para dentro da mata na esperança de ver um índio, ou talvez uma índia, mas ao mesmo tempo me vinha um certo medo de ver uma flecha vindo na minha direção antes de qualquer outra coisa. Uma frase não me saía da cabeça, "índio mata você". Me dei conta que eu estava realmente meio tenso, pedalando apressado, pensava - "a mulher falou que eu podia passar, mas sabe lá... será que eu não devia ter ouvido o índio, afinal ele era um deles". Depois de uns 30 km pedalados, e em meio a essas indagações e também outras de se eu conseguiria realmente percorrer todo o trecho antes de anoitecer, a mesma moça encosta a camionete da Funai.

- Você não quer pegar uma carona com a gente até o outro lado da reserva? perguntou ela.

Eu percebi que não era bem um convite, não sei se ela conversou com outra pessoa, mas por algum motivo ela mudou de idéia quanto a eu ir pedalando. Aceitei sem discutir. Paramos em um posto de controle, que ficava localizado no meio da reserva, e lá ganhei um almoço junto com os funcionários.


Depois do almoço fui deixado em Jundiá, uma vila na beira da reserva. Por um lado eu estava aliviado, não tinha mais muito o que temer; mas por outro um pouco frustrado, meu lado aventureiro e meio inconsequente queria ter visto o que aconteceria na travessia. Pedalei mais 40km até uma vila chamada Equador. Um pouco antes de chegar lá havia um monumento na latitude 0º, eu estava agora oficialmente no hemisfério norte. Junto a esse monumento tinha uma placa comemorativa sobre a construção da estrada entre Manaus e Boa Vista, e também em homenagem aos militares que morreram nessa empreitada. Algumas horas antes, a moça da Funai me contou um pouco da história daqueles índios e da construção da estrada na década de 60 e 70.

Sob o mote do tão falado progresso do regime militar, essa estrada seria uma das maneiras de levar o 'desenvolvimento' para a região norte. O caminho mais lógico para a futura estrada cruzava uma área indígena, mas claro que isso não era problema para os militares. Contam que na medida que as máquinas iam progredindo selva adentro, quando os operadores chegavam para trabalhar de manhã, encontravam os tratores todos amarrados com cipó, numa inútil tentativa dos índios em conter aqueles 'monstros' que adentravam na floresta destruindo tudo o que eles conheciam. Mais tarde vieram os conflitos com os trabalhadores da estrada. Depois disso o exército entrou em cena para combater as lanças e flechas com balas e bombas. O número de índios Waimiri-Atroari, que era de aproximadamente 2 mil antes desses encontros, ficou reduzido a 374 pessoas em 1987. Hoje em dia eles são em torno 1200. Se fossem colocar o nome dos índios mortos precisaria de um monumento bem maior. Outros dois acontecimentos que afligiram a região indígena foi a instalação de um grande projeto de extração de cassiterita, e a instalação da usina hidrelétrica de Balbina, cuja represa atingiu boa parte do território.

No dia que saí da Vila do Equador aconteceu um encontro não muito agradável. Enquanto eu pedalava, em uma descida - por sorte -, senti um inseto pousar na minha perna. Antes que eu tivesse tempo de tirá-lo senti a picada. A dor começou de leve, achei que era uma daquelas butucas, mas rapidamente a dor se acentuou bastante e eu consegui ver que era um marimbondo, e dos grandes. Foi só quando eu tomei a segunda picada na braço, e vi uma grande quantidade dos malditos me sobrevoando, é que eu percebi o que estava acontecendo. A terceira no pescoço foi a mais doída. Saí numa disparada que, imagino eu, tenha sido digna dos melhores velocistas. Por uma meia hora eu pedalei tão rápido quanto pude e não tive coragem de parar, imaginando estar sendo perseguido. A dor era grande, eu gemia homenageando alternadamente cada uma das minhas picadas. Nos dias que se seguiram eu fiquei, digamos assim, hiperresponsivo. O menor sinal de qualquer coisa que voasse perto de mim já desencadeava uma resposta automática de um "sprint" de uns 100 metros. Depois é que eu olhava pra trás pra ver se era um bicho dos mal-intencionados e se tinha mais de um.

Um dia antes de chegar em Boa Vista, dormi em um posto de gasolina na cidade de Mucajaí. A uns 5 km da cidade me deparei com a ponte do rio Mucajaí, como sempre faço nas pontes, parei e dei uma olhadinha pra baixo. Era muito alta - não dava pra pular. Qual não foi meu espanto quando encontrei 2 garotos que moravam nas rendondezas com calção de banho e se preparando pra pular. Eles me explicaram que tinha uma estrutura de ferro embaixo da ponte que ficava uns 3 ou 4 metros mais baixo do que o corrimão, e eles pulavam de lá. Enquanto conversava com eles, ouço um grito e um barulho de algo caindo na água. Era o terceiro rapaz que já estava nesse lugar mais baixo. Depois de alguns minutos de muita reflexão e indecisão, cheguei a conclusão de que não conseguiria ir embora sem pular daquela ponte. Tirei os sapatos e a camiseta e fui com os outros dois, eles afirmaram que também já haviam pulado algumas vezes. Era um pouco complicado pra descer até aquela estrutura, mas nada impossível. Chegamos lá no ponto exato onde era o pulo. O desafio estava posto. Eu já tinha pulado de alguns lugares até bem altos mas, sem nenhuma dúvida, aquele era maior do que todos os outros. Geralmente quando eu vou pular, eu chego, me certifico que é fundo e vou, mas dessa vez não foi tão simples. Eu queria pular mas as pernas não obedeciam, foram bem uns 20 minutos de hesitação que pareciam uma eternidade. Os outros dois rapazes também não pareciam com mais coragem do que eu. Fiquei na dúvida se eles realmente já tinham pulado dali antes. Ficamos um bom tempo naquela discussão do "se você pular eu pulo", mas claro que ninguém ia primeiro. Um deles resolveu voltar, ficamos só em dois. Alguns minutos depois chegou o outro que tinha pulado na hora em que eu cheguei na ponte. Falei pra ele - "vai lá, se você for eu vou em seguida". Ele foi. Eu fiquei. Minha pernas tremiam mais que vara verde segundo a descrição do outro. Mais uns 10 minutos naquele pula ou não pula, e o cara voltou pra pular novamente. Eu pensei em subir e ir embora, tem uma teoria que depois de um certo tempo olhando pra água, se não pulou não pula mais. O cara foi pela terceira vez, assim que ele caiu na água, não sei como, eu consegui dar o tão temido passo a frente. Na sequência, o movimento involuntário dos braços lembrava um pássaro desengonçado, como quem se arrependeu e quer voltar onde estava. O tempo que tardou pra chegar até a água era enorme, com certeza infinitas vezes mais para quem despenca no ar do que para quem olha aquele corpo cair. Mergulhei na água e retornei a superfície já querendo pular novamente, mesmo sabendo que a primeira vez é sempre a melhor. Pulei mais 3 vezes, duas do mesmo lugar - com direito até a foto - e a última de cima do corrimão, esta me rendeu uma bela dor na sola do pé e no queixo.

Cheguei em Boa Vista na segunda-feira a tarde. Um total de 3450 km até aqui. Três dias antes, eu conheci na estrada um figura chamado Zezão, ele morava no sul do estado, mas falou que tinha um amigo em Boa Vista e ele poderia me receber, me passou o telefone do Théo, onde estou agora. Acho que não é das situações mais comuns chegar na casa de alguém e falar "eu conheci na estrada um amigo seu que falou que eu podia dormir aqui", exije mesmo uma certa cara de pau, mas felizmente aqui, como em tantos outros lugares, fui muito bem recebido também.


Um estudante de medicina da UFRR, que ficou sabendo do blog pela matéria que fizeram da viagem no Correio Braziliense, me mandou um e-mail oferecendo qualquer ajuda que eu precisasse aqui na cidade. Quando liguei pra ele, fiquei sabendo que um professor da medicina queria que eu desse uma palestra para os alunos do primeiro ano, contando minhas experiências. - "Palestra? Mas o que eu iria falar?", conversei com ele e ele me explicou que era mais uma conversa, a turma era pequena - apenas 23 alunos - então era para eu contar um pouco sobre o que eu vi nessa viagem. No dia tinha bem pouca gente. Levei algumas fotos, respondi praticamente às mesmas perguntas de sempre e contei alguns causos. Depois me diverti ao saber que eles teriam que fazer um relatório sobre as coisas que eu falei. Nem me deu muita saudades de voltar às aulas.

Parto amanhã e em 3 dias devo chegar em Santa Helena, já na Venezuela.
De lá serão mais umas 2 ou 3 semanas até chegar ao litoral e depois Caracas.