Aos relatos.
Depois de uma semana parado em Boa Vista, resolvi seguir em frente. Pedalei até anoitecer e amarrei minha rede em uma mangueira. Dormi ao lado de uma lanchonete apagada, já longe da civilização. Nos últimos dias eu tenho me acostumado a dormir na rede, é mais fresco e dá menos trabalho do que a barraca. No outro dia pedalei uns 30 km e um cara em uma Pampa encostou e me ofereceu carona. Percorri 150km com ele, poupando um dia de pedalada até a fronteira. Além de ganhar a carona mais um refrigerante e um pastel, conheci uma profissão diferente, a de pampeiro.
O que eles fazem é comprar gasolina na Venezuela e vender em Boa Vista. São 230km da cidade até a fronteira, mas mesmo assim o negócio é bem lucrativo. O litro de gasolina nos postos de
Parei uma noite em Pacaraima, cidade colada na linha da divisa, e acampei em um Centro Cultural que havia lá. No dia seguinte passei na Polícia Federal para carimbar a saída do Brasil no passaporte e lá encontrei um americano que estava fazendo o caminho inverso do meu. Ele morou 4 anos na Venezuela e agora ia conhecer o Brasil. Conversamos um pouco e ele fez questão de falar e repetir para eu conhecer um vilarejo chamado Paujy, que segundo ele, era um dos lugares mais bonitos de toda a Venezuela. Ele me deu o nome de duas pessoas que poderiam me hospedar lá. Ele foi embora e eu segui meu caminho, algumas poucas viradas no pedal e eu me despedi do Brasil.
Estranho essa coisa de fronteiras, cruza-se uma linha e de repente tudo muda, a língua, o dinheiro, a comida, os costumes, as feições, parece que até a paisagem e o clima também mudaram, porque uns 10 minutos depois de chegar na Venezuela fui presenteado com uma chuva que há dias não vinha.
Pedalei mais alguns quilômetros e cheguei em Santa Helena. Descobri que a cidade que o Americano falou ficava fora do meu caminho, a 80 km para oeste, e depois tinha que voltar pelo mesmo caminho. Fiquei bem na dúvida se ia até lá ou não, seriam 160 km para voltar aonde eu estava. Pensei bem e resolvi ir mesmo assim. Comprei umas comidas e saí de Santa Helena no
Fiquei 3 dias na casa do Wilfrido. O lugar era realmente muito bonito, e de uma tranquilidade
No caminho de volta, como tinha mais descida, consegui fazer em um dia só. Fiquei mais 2 dias em Santa Helena e segui viagem pela Gran Sabana Venezuelana. Por 4 dias pedalei dentro do Parque Nacional Canaima, a paisagem é lindíssima, tem cachoeiras espalhadas por todo o lado, é nessa região que está localizado o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, com 979 m de queda.
No total, de Santa Helena até aqui foram 8 dias de viagem, não pude comer muito bem porque não havia muitos lugares onde comprar comida, mas a paisagem e o sossego compensavam qualquer coisa. De Eldorado, a primeira cidade depois do Parque Nacional, eu pedalei o dia todo para chegar em Tumeremo. Lá dormi em um posto de gasolina e tive que tomar banho com um balde, porque os postos daqui não tem banheiro - que saudades do Brasil. No outro dia cheguei até El Callao. A estrada estava muito ruim neste trecho, não havia acostamento e o movimento era grande. Para piorar a situação, o mato ao lado da estrada era alto e ficava muito perto da pista, em alguns lugares até
Quando eu ainda estava no Brasil, perto da fronteira, ouvi muitas coisas sobre a Venezuela. Além da gasolina barata e dos comentários sobre o Chávez, ouvi dizer que os venezuelanos não gostavam muito dos brasileiros, que não eram muito hospitaleiros, que a polícia era muito corrupta e quando viam um carro brasileiro sempre paravam e cobravam uma propina para deixá-los seguir em frente. Não sei se por eu estar acompanhado pela Gaia, ou por sorte apenas, mas felizmente eu tive uma visão bem diferente desse país. Quanto à hospitalidade, agora eu estou na casa de uma Venezuelana que nunca tinha me visto antes e me recebeu de bom coração. Além dela e das outras casas que eu fiquei, nenhuma vez me negaram um lugar pra acampar ou um pouco de água. E quanto à polícia, várias vezes me pararam na estrada pra pedir documentos, mas nunca me cobraram nada. Uma certa vez que eu parei para descansar em um posto da polícia rodoviária, vi eles pedirem uma melancia de um caminhão que transportava melancias para deixá-los passar. Alguns instantes depois eles me trouxeram uma fatia de presente. Acho que isso realmente tem a ver com o meu meio de transporte. Acho que é pra compensar os banhos de balde e as subidas empurrando.
No dia que estava chegando aqui em Puerto Ordaz aconteceu outro causo interessante. Parei no acostamento pra descansar um pouco. Eu estava no meio de uma subida, pouco inclinada mas muito longa, daquelas do tipo que quando você está distraído, só vê que está subindo quando percebe que está mais cansado do que deveria estar. Era meio dia e meio e o sol estava forte, eu não havia passado protetor solar quando saí de manhã porque naquela hora o tempo estava nublado. Só fui me lembrar disso quando senti o braço queimando. Procurei nos alforjes alguma coisa pra comer, só tinha mais 2 bolachas e bastante água quente. Comi e fiquei descansando por um tempo e esperando o suor secar para passar o protetor. De repente eu ouço umas buzinas e vejo uma camionete velha dando ré em plena estrada movimentada - pensei comigo: "O que que esse animal está fazendo?" Ele voltou de ré por uns 100 metros e parou bem perto de mim. Desceu e veio andando na minha direção. Ele trazia uma caixa com duas bananas, duas ameixas, uma maça, uma tangerina e mais uma caixa de suco. Me entregou tudo. Ele não quis saber de onde eu vinha, para onde eu ia, nada. Me entregou as frutas, me desejou "suerte" e se foi. Mesmo sem entender muito bem o que havia acontecido, eu comi todas aquelas frutas de uma só vez com um sorriso largo no rosto, fazia dias que eu não tinha um almoço tão saboroso. As frutas estavam ótimas, e... o suco de maça... é um capítulo a parte.
Ele estava gelado. Descia pela garganta de uma forma impossível de descrever, não é como tomar um suco que estava na geladeira de casa, ou mesmo um suco feito na hora em uma
Algumas horas depois cheguei na cidade. Estava procurando a casa da Arelis quando encontrei um brasileiro no sinaleiro. Ele parou o carro do meu lado e rapidamente me fez as perguntas de sempre, mas era um pouco diferente do que o de costume, não tinha aquele ar de espanto e curiosidade, mas um tom de indignação e agressividade, como se de alguma forma eu o ofendesse com a minha estória. Depois, já quase com raiva e num tom de deboche ele me perguntou: "Mas... e o que que ganha com isso?" Na verdade não foi a primeira vez que me fizeram essa pergunta, e nesse tom, já tinha acontecido uma vez ou duas. E nessas vezes eu não pude deixar de perceber uma certa amargura no rosto dessas pessoas, e pensar que talvez sejam pessoas com quem a vida não foi muito complacente.
Pensei em responder pra ele que ganha fugir da mediocridade que a vida pode se tornar, ganha conhecer lugares, culturas, línguas, pessoas, realidades diferentes; aprender coisas que antes nem pensava possíveis, fazer amigos, se sentir parte da natureza, respirar ar puro, fazer exercícios diariamente, conhecer a si mesmo, aprender que precisamos de muito pouco para ser felizes, e que as melhores coisas da vida não custam nada... Pensei em dizer tudo isso pra ele, mas era uma conversa muito longa e talvez ele não estivesse disposto a compreender nada disso. Além do mais o sinal já ia abrir. Então respondi: ganha melancia, outras frutas e suco gelado.