Na segunda feira, 26 de novembro, me despedi da Arelis e do Wili - onde eu estava hospedado, e
Depois vi que foi bom ter aceitado a carona, porque o lugar que eu queria chegar pra dormir ainda estava bem longe e choveu mais e anoiteceu cedo. Desci no pedágio e montei acampamento lá. A janta, assim como em quase todos os outros dias, se resumiu a atum enlatado, pão, biscoitos e água. Saudades das minhas jantas no Brasil, quando pelo menos tomava um leitinho com tody em vez de água. Desde que cheguei na Venezuela, quando entro nos mercados a primeira coisa que eu procuro é leite em pó, mas agora já estou me acostumando com a idéia de que isso não existe por aqui, um cara que trabalhava no caixa me disse que para comprar leite você tem que estar no lugar certo e na hora certa, porque nas raras vezes que chega, já acabou.
Meu violão havia se quebrado uns dias atrás. Acho que devido às condições desfavoráveis das estradas por aí. Quando cheguei em Porto Ordaz, levei o violão para um cara que supost
Num destes dias, como em outros tantos dias nessa rotina de viajante de bicicleta, tive que fazer uma paradinha no mato para 'aquelas necessidades'. Estava eu, já com os apetrechos na mão, me dirigindo para um lugar um pouquinho mais recluso, quando de repente, segurei o passo no ar, debaixo do meu pé deslisava uma cobra coral. Ela não parecia ter se incomodado muito com a minha presença, mas a recíproca não era verdadeira. Esperei pra ver se ela saía, e nada, ela continuou ali me mostrando a língua, bem no lugar que eu tinha escolhido, como quem diz: aqui não negão.
Uns 5 dias depois que eu saí de Puerto Ordaz, tive uma ótima surpresa. Eu vi o mar. Há algum te
Nesse mesmo dia à noite eu cheguei em Puerto Piritu, parei em um hotel e perguntei o preço só pra ter uma noção. Custava 60.000 bolívares, equivalente a uns 30 reais, eu não iria pagar isso, mas como a cidade era meio grande eu fiquei preocupado de acampar em qualquer lugar. Perguntei para o dono do hotel se ele sabia onde tinha um camping. Ele não sabia o que era isso, quando eu falei que era pra colocar a barraca e tal, ele disse que eu podia dormir no estacionamento do hotel, e me cobraria 20.000. Ainda assim eu achei caro, afinal não tinha nem chuveiro, só uma torneira pra tomar banho. Ele então baixou pra 15 e depois pra 10.000. Eu falei que ia dar uma volta pela cidade e depois voltava lá, na verdade eu estava na esperança de achar um lugar pra dormir sem pagar nada, como fazia sempre. O cara então viu meu violão e pediu pra eu tocar alguma coisa, tirei a viola e junto já saiu a pastinha com as matérias de jornal, fiquei ali tocando e conversando com ele e com uns ciganos que estavam no estacionamento. Depois ele me perguntou se eu já tinha comido alguma coisa, me mandou trazer um refri e uma arepa (comida típica daqui). No final das contas, da cantoria e das estórias, ele me falou que eu podia ficar acampado ali quantos dias quisesse e não precisava pagar nada.
Fui até a tal praia, que se eu não me engano se chamava Machurucutu e acampei na areia
Cheguei em Caracas no dia 5 de dezembro e liguei para o Rafael, a princípio não sabia que tipo de
No primeiro final de semana em Caracas, que eu achei que seria o único, fiz amizade com o pessoal da rua e fomos subir o Ávila, uma cadeia de montanhas que circunda a cidade. No meio do caminho caiu uma chuva bem forte e por sorte achamos abrigo embaixo de uma pedra, mas não conseguimos chegar no topo, não nesse dia...
Em uma das vezes que eu liguei na embaixada de Cuba, um senhor sugeriu que eu fosse conhecer a ELAM (Escuela Latinoamericana de Medicina) aqui da Venezuela. Eu não sabia que existia uma sede na Venezuela, mas já tinha ouvido falar da ELAM de Cuba, que é uma escola de medicina gratuita para estrangeiros, que tem estudantes não só da América Latina mas também de alguns países africanos. Fui até lá e me convidaram para passar uma noite e conhecer a escola. A ELAM da Venezuela tem apenas um ano que foi criada e lá havia quatrocentos e poucos estudantes de 13 países da Améria Latina, e entre eles, 65 brasileiros. Eu não quis ficar naquele dia porque estava só com a roupa do corpo e também porque o pessoal estava estudando para uma prova de química, mas depois voltei e fiquei lá 2 dias. Foi ótimo porque consegui alguns contatos em Cuba e até um convite pra ficar na casa de um médico cubano. Também fui conhecer o programa Barrio Adentro, que é um equivalente do PSF brasileiro (Programa Saúde da Família). E o melhor de tudo é que eu fui muito bem acolhido pelos brasileiros que estavam lá, eu já estava com saudades de falar português e mais ainda de tomar um bom chimarrão.
Fui até a emabaixada de Cuba pela segunda vez e o sujeito com quem eu deveria falar estava lá, depois de 3 horas ele finalmente me atendeu. Me prometeu alguns contatos com umas instituições cubanas mas nada concreto, fiquei mesmo só com o famoso 'me ligue amanhã'. Saí de lá e fui até o palácio Miraflores, para tentar conseguir alguma ajuda do governo da Venezuela. Fui atendido mas, outra vez, me falaram para retornar no outro dia, porque a pessoa que era responsável pelo convênio Venezuela-Cuba não estava lá. Voltei para casa e fui lá no outro dia pela manhã, mas não sem pensar duas vezes, pois além das minhas buscas não estarem sendo muito produtivas, dava uns 20 km até lá, e Caracas não é exatamente uma cidade amiga dos ciclistas. O trânsito aqui é uma coisa caótica, depois de pedalar bastante pelas ruas da ciadade, cheguei à conclusão definitiva que os semáforos tem função exclusivamente decorativa, são luzinhas coloridas que piscam alternadamente apenas para embelezar as ruas, o pisca-pisca dos carros é um acessório opcional e completamente desnecessário, mas o mesmo não vale para a buzina, que é o que mais se usa por aqui. Direção defensiva então é um conceito utópico.
Na segunda vez que fui até o palácio do governo e pude enfim falar com a pessoa certa, ele disse que não poderia me ajudar, e sugeriu que eu procurasse o IND, Instituto Nacional de Deportes, e tentasse alguma coisa por lá. Cheguei no IND perto da hora do almoço e pra não perder o costume o guarda me falou para voltar mais tarde, mas pelo menos era no mesmo dia desta vez, depois do horário do almoço. Voltei lá algum tempo depois e havia mudado o guarda da portaria, este não queria me deixar entrar, disse que se eu não tinha uma hora marcada com alguém não podia entrar, e disse que além disso quase todos estavam de férias naquela época e sugeriu que eu voltasse lá umas duas semanas depois. Fiquei ainda uma meia hora insistindo e repetindo a mesma coisa e nada, o cara nem me olhava. O maldito tinha um ar sádico de quem se deliciava com a sensação de poder proporcionada por aquele uniforme e aquela cinta com seus penduricalhos de metal e pólvora. Me veio uma leve vontade de estrangulá-lo, mas logo me contive. Eu estava já de saída, cabisbaixo e puto da vida, quando encontrei o Sombra, um cara com quem eu tinha conversado antes e já sabia da minha história. Ele me perguntou se eu tinha conseguido alguma coisa e se indignou quando lhe contei que nem tinham me deixado entrar. No mesmo instante um cara de moto estava saindo para almoçar, o Sombra o parou e rapidamente contou o que se passava, ele falou que podia me ajudar, disse para esperá-lo voltar do almoço - esse almoçava mais tarde - e depois conversávamos melhor. Depois fui saber que o Sombra era treinador de ciclismo e o cara da moto se chamava Jesus Castro e era o presidente do tal IND.
Esperei 2 horas e subi para falar com o Jesus, quando cheguei ao escritório dele ele me perguntou: "Você já fez tudo o que precisava fazer na Venezuela?", eu não entendi direito o porquê da pergunta mas disse que sim, ele então falou: "tem um avião do governo da Venezuela que parte para Havana amanhã de manhã e você pode ir nele". Ele me explicou que esse avião levava alguns pacientes que são operados em Cuba e também os médicos cubanos que trabalham aqui no programa Barrio Adentro. Saí de lá com um largo sorriso no rosto e agradecendo a Jesus com a maior devoção que me é possível, e também ao Sombra, sejamos justos.
Cheguei cantando alegremente na casa do Rafael e fui logo arrumar as coisas, tratei de desmontar a bicicleta todinha e deixá-la o mais compacta o possível, a Gaia pra viagem. Prendi
Cheguei no aeroporto às 6 horas da manhã e fui logo me informar sobre o vôo, a pessoa que eu deveria procurar não estava lá, e ninguém sabia me dizer de onde nem a que horas o avião saía. Depois de muito tempo, descobri que o vôo saía mais tarde, mas não tinha um hora exata. Fui saber também que eu tinha que ir para um outro terminal, que ficava a mais de 1 km de onde eu estava. Tentei carregar tudo numa vez só: violão, bicicleta e malas, mas depois de alguns poucos passos percebi que não tinha condições, era muito peso. Tive que fazer duas viagens, e mesmo assim foi bem sofrido, fiquei com dor nas costas por quase uma semana depois daquele dia. Depois disso passei a considerar a Gaia ainda mais por ter me ajudado a chegar até aqui. Bom, mas pra encurtar o causo, fiquei o dia todo andando de cima pra baixo naquele aeroporto e o avião saiu só às 10:00 da noite, e eu não estava dentro dele. Pela pouca informação que me deram o vôo lotou e não tinha mais lugar pra mim. Quando por fim eu me convenci que não ia pra Cuba naquele dia, já não tinha mais ônibus pra voltar pra Caracas. Eu não iria ligar pro Rafael ir me buscar porque seria muito abuso, procurar um hotel por perto também estava fora dos meus planos. Na verdade eu estava tão doído que qualquer plano que incluísse carregar toda a minha tralha por mais de dez passos estava excluído. Eu já havia me convencido de que não iria jantar, pois a praça de alimentação ficava no outro prédio, e que iria dormir em uma daquelas cadeiras do saguão do aeroporto, realmente não era a coisa mais confortável do mundo, mas... fazer o quê.
Quando eu estava carregando a minha tralha para uma cadeira um pouquinho mais recolhida, encontrei um cara com quem eu havia conversado uns momentos antes. Acho que, por pena, ele me ofereceu uma carona até o centro de Caracas. Eu fiquei pensando se seria melhor dormir ali naquela cadeira, que já estava sorrindo pra mim, ou ficar perdido no centro de Caracas com toda aquela bagagem. Como cautela nunca foi o meu forte, acabei indo com ele. Pra minha sorte ele resolveu me deixar lá na casa do Rafael, o lugar mais próximo do que eu poderia chamar de "casa", no caminho ainda ganhei uma janta. Interessante pensar que mesmo apesar de quase tudo dar errado naquele dia, me senti o mais afortunado só por poder dormir deitado e com a barriga cheia.
Outra vez eu longe de casa e chegou a época mais nostálgica do ano. Os vizinhos lá da rua do Rafa me convidaram para passar o natal com eles e tinha também a opção de ir para a ELAM. Escolhi ficar com os brasileiros. Cheguei na escola bem na hora da janta. A fila do refeitório estava como nas outras vezes, mas nesse dia havia música, tocava um reggaeton, música que mais se ouve por aqui. A fila continuava comportada, ninguém se atrevia a ir dançar e perder o lugar, e os que já tinham comido também não ficavam por lá. Até que de repente começou a tocar um samba. Foi como um chamado. Os brasileiros que estavam na fila saíram, os que estavam comendo se levantaram e foram todos para o meio do salão. Mesmo eu que não sei sambar também me meti no bloco. Naquele momento me senti abençoado por estar ali, me senti em casa. Longe de mim ser ufanista, mas pensei comigo... "brasileiro é diferente mesmo, sempre os mais animados"
Depois ainda rolou forró no quarto e o mais perto que pudemos chegar de uma ceia de natal. Foi ótimo poder dizer Feliz Natal em vez de Feliz Navidad, não matou a saudade da família e dos amigos, mas pelo menos na saudade do Brasil deu um jeitinho. Fiquei na ELAM do dia 23 ao dia 26.
Eu já estava há mais de cinco meses sem fazer a barba, tinha dado algumas aparadas nela mas
Como a possibilidade de arranjar o translado até Cuba nesses dias de festas eram muito pequenas e também, ninguém é de ferro, resolvi ir passar o ano novo na praia com a galera da ELAM. Peguei a barraca e algumas roupas e voltei pra lá no dia 28. Tivemos que pegar 2 ônibus e um barco para chegar até Chuau, apesar de que a palavra ônibus é um elogio demasiado
Chegamos em Chuau no final da tarde. Ficamos acampados lá até o dia 2. O clima estava ótimo, sol o dia todo e céu estrelado todas as noites. Ganhei até umas trancinhas no cabelo (foto). Como a escola ajudou com a comida e também não gastávamos nada com banho já que havia um rio de água transparente bem próximo, a viagem saiu bem econômica. O gasto dos 6 dias foi praticamente só o transporte, mais ou menos 50.000 bolívares, que no câmbio que eu troquei equivalia a pouco mais de R$ 20,00.
Queria aproveitar pra deixar aqui um abraço com muito carinho para todo o pessoal da ELAM (digo, os brasileiros, que foram os que eu tive a oportunidade de conhecer), eu colocaria o nome de cada um aqui se não fossem muitos e se a minha memória fosse boa. Mas com certeza não me esquecerei de como fui bem acolhido, ao ponto de passado alguns dias eu já me sentir entre velhos amigos.
Só pra constar, neste último final de semana, eu e o mesmo pessoal da rua, desta vez conseguimos chegar no topo do Pico Oriental do Ávila a 2600m do nível do mar. Saímos às 5 horas da manhã e voltamos - meio arrebentados - só às 8 horas da noite.
Então, pra resumir a conversa - acho que escrevi demais dessa vez - ainda estou na espera pra ir pra Cuba. Depois de tanto tempo pedalando e de ter chegado tão longe (falando nisso, completei 5.000 km), é muito frustrante essa sensação de impotência, de não poder chegar lá pelos meus próprios meios. Talvez eu devesse ter feito uma gambiarra e transformado a Gaia num pedalinho no dia que eu cheguei no litoral e agora já estaria em Cuba há tempos... ou não né... De qualquer forma acho que dessa semana não passa, de um jeito ou de outro eu vou. Talvez seja meio difícil mandar notícias lá de Cuba, então é provável que o próximo relato eu escreva já do conforto do lar. Ainda não sei também como farei ao certo para voltar pra casa, mas vai ter que ser rápido, afinal, dia 11 de fevereiro começam as minhas aulas em Curitiba, e se tudo correr como o planejado, eu estarei lá (ou aí - pros meus tão saudosos conterrâneos) nesse dia, ou no máximo com uma semana de atraso, como de costume. Até mais ver...
Matéria na Nueva Prensa de Guayana.
Surf na Gaia...


