quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

2º tempo e prorrogação em Caracas

Já se passou um mês e meio desde a última vez que eu escrevi, também um mês que eu cheguei em Caracas, e há alguns dias também, fez 6 meses que eu saí de casa. Acho que eu fiquei tanto tempo sem escrever porque estou já há tanto tempo sem pedalar. De alguma maneira a ação de pedalar me inspira a escrever, e também, parece que o tempo passa num ritmo diferente quando estou pedalando e quando estou parado. Os "causos" não acontecem na mesma proporção, é como se um dia dessa vida nômade equivalesse a uma semana ou talvez um mês da vida normal, tanto no que se refere às estórias pra se contar quanto às memórias que ficam do que passou.

Na segunda feira, 26 de novembro, me despedi da Arelis e do Wili - onde eu estava hospedado, e parti de Puerto Ordaz depois de 3 dias de mordomia. Atravessei o Orinoco, maior rio da Venezuela, que neste trecho marcava a divisa entre os estados Bolívar e Anzoátegui. Pedalei uns 40 km e peguei uma chuva bem forte, por sorte consegui me abrigar a tempo embaixo de uma construção abandonada. Depois da chuva, um caminhoneiro parou no acostamento e me ofereceu carona. Como neste pedaço a estrada estava boa e eu estava curtindo uma música, falei que não precisava, que iria pedalando mesmo. Mas ele insistiu tanto que ficou até chato recusar. Pra minha sorte o cara estava ouvindo Beatles no caminhão, então não saí em desvantagem no quesito musical. Depois ele ainda fez a maravilhosa pergunta: "você está com fome?" e me apresentou um bolo delicioso. Não sei porque, mas parece que eu sempre estou com fome, com muita fome. Talvez eu tenha emagrecido um pouco, mas não sei ao certo, porque aqui não tem balança nas farmácias, então já faz mais de 2 meses que eu não me peso. Mas também não é nada que eu não recupere na hora que voltar a comer a boa e velha comidinha de casa.

Depois vi que foi bom ter aceitado a carona, porque o lugar que eu queria chegar pra dormir ainda estava bem longe e choveu mais e anoiteceu cedo. Desci no pedágio e montei acampamento lá. A janta, assim como em quase todos os outros dias, se resumiu a atum enlatado, pão, biscoitos e água. Saudades das minhas jantas no Brasil, quando pelo menos tomava um leitinho com tody em vez de água. Desde que cheguei na Venezuela, quando entro nos mercados a primeira coisa que eu procuro é leite em pó, mas agora já estou me acostumando com a idéia de que isso não existe por aqui, um cara que trabalhava no caixa me disse que para comprar leite você tem que estar no lugar certo e na hora certa, porque nas raras vezes que chega, já acabou.

Meu violão havia se quebrado uns dias atrás. Acho que devido às condições desfavoráveis das estradas por aí. Quando cheguei em Porto Ordaz, levei o violão para um cara que supostamente sabia consertá-los. Sei que 3 dias depois que eu sai de lá, estava quebrado outra vez no mesmo lugar, o cavalete descolou do mesmo jeito, e assim não dava pra tocar. Como eu já estava muito longe pra voltar e reclamar do serviço, e também muito longe da próxima cidade grande para procurar outro "consertador", resolvi fazer o serviço eu mesmo, afinal a rotina ficava bem mais sem graça sem a companhia do meu violão. O que eu dispunha era um canivete, corda, e o que mais eu achasse na estrada. Levei um dia todo pra fazer a 'coisa'. Algumas tentativas frustradas mas no final das contas consegui deixar o violão "tocável" outra vez, ficou bem feio mas funcionou, na mais fina arte da gambiarra.

Num destes dias, como em outros tantos dias nessa rotina de viajante de bicicleta, tive que fazer uma paradinha no mato para 'aquelas necessidades'. Estava eu, já com os apetrechos na mão, me dirigindo para um lugar um pouquinho mais recluso, quando de repente, segurei o passo no ar, debaixo do meu pé deslisava uma cobra coral. Ela não parecia ter se incomodado muito com a minha presença, mas a recíproca não era verdadeira. Esperei pra ver se ela saía, e nada, ela continuou ali me mostrando a língua, bem no lugar que eu tinha escolhido, como quem diz: aqui não negão.

Uns 5 dias depois que eu saí de Puerto Ordaz, tive uma ótima surpresa. Eu vi o mar. Há algum tempo eu já estava sentindo que ele estava por perto. E nesse grande dia, no final da tarde, do topo de uma montanha eu avistei aquela imensidão azul. Acho que, apesar de inversa, a situação foi muito parecida com a dos marinheiros que avistam terra depois de muitos meses no mar. Que saudades eu estava daquela brisa refrescante, de molhar os pés na água depois de um dia de pedalada, dos banhos, das ondas... Não foi exatamente o caminho mais curto esse que eu escolhi desde a minha casa para chegar até o mar, mas com certeza foi recompensador.


Nesse mesmo dia à noite eu cheguei em Puerto Piritu, parei em um hotel e perguntei o preço só pra ter uma noção. Custava 60.000 bolívares, equivalente a uns 30 reais, eu não iria pagar isso, mas como a cidade era meio grande eu fiquei preocupado de acampar em qualquer lugar. Perguntei para o dono do hotel se ele sabia onde tinha um camping. Ele não sabia o que era isso, quando eu falei que era pra colocar a barraca e tal, ele disse que eu podia dormir no estacionamento do hotel, e me cobraria 20.000. Ainda assim eu achei caro, afinal não tinha nem chuveiro, só uma torneira pra tomar banho. Ele então baixou pra 15 e depois pra 10.000. Eu falei que ia dar uma volta pela cidade e depois voltava lá, na verdade eu estava na esperança de achar um lugar pra dormir sem pagar nada, como fazia sempre. O cara então viu meu violão e pediu pra eu tocar alguma coisa, tirei a viola e junto já saiu a pastinha com as matérias de jornal, fiquei ali tocando e conversando com ele e com uns ciganos que estavam no estacionamento. Depois ele me perguntou se eu já tinha comido alguma coisa, me mandou trazer um refri e uma arepa (comida típica daqui). No final das contas, da cantoria e das estórias, ele me falou que eu podia ficar acampado ali quantos dias quisesse e não precisava pagar nada.

Fiquei só uma noite mesmo pra não abusar da gentileza. No outro dia, acompanhando a maré de boa sorte, parei em uma lanchonete para comer uma empanada e na hora de pagar, a senhora falou que não precisava, ficava de ajuda pela viagem. Neste dia acampei em uma praça de pedágio. Em outra parada pra empanada - que desta vez eu paguei - conheci o senhor Rafael Calderón, ele me deu a dica de dormir em uma praia bem tranquila naquela noite e me deu também o endereço de uma chácara de um amigo dele, onde eu poderia dormir no outro dia.

Fui até a tal praia, que se eu não me engano se chamava Machurucutu e acampei na areia mesmo. No meio da noite caiu um pé d'água digno de nota, ainda bem que minha barraca se comportou como eu esperava e não passou água para dentro. O dia amanheceu limpo e eu ainda tomei um banho de mar antes de sair. Cheguei à noite na chácara em Caucágua e fiquei bem acomodado lá por 2 dias, depois segui para Caracas. Ainda na chácara, recebi um recado do Rafael dizendo que quando eu chegasse em Caracas podia procurá-lo se precisasse de uma ajuda.

Cheguei em Caracas no dia 5 de dezembro e liguei para o Rafael, a princípio não sabia que tipo de ajuda ele estaria disposto a me prestar, mas o que eu queria mesmo era um lugar pra dormir sem gastar nada. Eu tinha também um outro contato na cidade, mas como é sempre bom ter mais de uma opção, resolvi falar com ele. Nos encontramos e numa boa ele me ofereceu um cantinho pra colocar o meu saco de dormir e meu colchonete. Minha intenção era fazer da estadia em Caracas a mais curta possível, para chegar logo em Cuba. Eu tinha que ir até a embaixada de Cuba pra resolver umas coisas do visto, e queria também tentar conseguir uma 'carona' em um barco ou avião do governo venezuelano, pra chegar em Cuba sem ter que pagar a passagem de avião, que não é das mais baratas.

No primeiro final de semana em Caracas, que eu achei que seria o único, fiz amizade com o pessoal da rua e fomos subir o Ávila, uma cadeia de montanhas que circunda a cidade. No meio do caminho caiu uma chuva bem forte e por sorte achamos abrigo embaixo de uma pedra, mas não conseguimos chegar no topo, não nesse dia...

Em uma das vezes que eu liguei na embaixada de Cuba, um senhor sugeriu que eu fosse conhecer a ELAM (Escuela Latinoamericana de Medicina) aqui da Venezuela. Eu não sabia que existia uma sede na Venezuela, mas já tinha ouvido falar da ELAM de Cuba, que é uma escola de medicina gratuita para estrangeiros, que tem estudantes não só da América Latina mas também de alguns países africanos. Fui até lá e me convidaram para passar uma noite e conhecer a escola. A ELAM da Venezuela tem apenas um ano que foi criada e lá havia quatrocentos e poucos estudantes de 13 países da Améria Latina, e entre eles, 65 brasileiros. Eu não quis ficar naquele dia porque estava só com a roupa do corpo e também porque o pessoal estava estudando para uma prova de química, mas depois voltei e fiquei lá 2 dias. Foi ótimo porque consegui alguns contatos em Cuba e até um convite pra ficar na casa de um médico cubano. Também fui conhecer o programa Barrio Adentro, que é um equivalente do PSF brasileiro (Programa Saúde da Família). E o melhor de tudo é que eu fui muito bem acolhido pelos brasileiros que estavam lá, eu já estava com saudades de falar português e mais ainda de tomar um bom chimarrão.

Fui até a emabaixada de Cuba pela segunda vez e o sujeito com quem eu deveria falar estava lá, depois de 3 horas ele finalmente me atendeu. Me prometeu alguns contatos com umas instituições cubanas mas nada concreto, fiquei mesmo só com o famoso 'me ligue amanhã'. Saí de lá e fui até o palácio Miraflores, para tentar conseguir alguma ajuda do governo da Venezuela. Fui atendido mas, outra vez, me falaram para retornar no outro dia, porque a pessoa que era responsável pelo convênio Venezuela-Cuba não estava lá. Voltei para casa e fui lá no outro dia pela manhã, mas não sem pensar duas vezes, pois além das minhas buscas não estarem sendo muito produtivas, dava uns 20 km até lá, e Caracas não é exatamente uma cidade amiga dos ciclistas. O trânsito aqui é uma coisa caótica, depois de pedalar bastante pelas ruas da ciadade, cheguei à conclusão definitiva que os semáforos tem função exclusivamente decorativa, são luzinhas coloridas que piscam alternadamente apenas para embelezar as ruas, o pisca-pisca dos carros é um acessório opcional e completamente desnecessário, mas o mesmo não vale para a buzina, que é o que mais se usa por aqui. Direção defensiva então é um conceito utópico.

Na segunda vez que fui até o palácio do governo e pude enfim falar com a pessoa certa, ele disse que não poderia me ajudar, e sugeriu que eu procurasse o IND, Instituto Nacional de Deportes, e tentasse alguma coisa por lá. Cheguei no IND perto da hora do almoço e pra não perder o costume o guarda me falou para voltar mais tarde, mas pelo menos era no mesmo dia desta vez, depois do horário do almoço. Voltei lá algum tempo depois e havia mudado o guarda da portaria, este não queria me deixar entrar, disse que se eu não tinha uma hora marcada com alguém não podia entrar, e disse que além disso quase todos estavam de férias naquela época e sugeriu que eu voltasse lá umas duas semanas depois. Fiquei ainda uma meia hora insistindo e repetindo a mesma coisa e nada, o cara nem me olhava. O maldito tinha um ar sádico de quem se deliciava com a sensação de poder proporcionada por aquele uniforme e aquela cinta com seus penduricalhos de metal e pólvora. Me veio uma leve vontade de estrangulá-lo, mas logo me contive. Eu estava já de saída, cabisbaixo e puto da vida, quando encontrei o Sombra, um cara com quem eu tinha conversado antes e já sabia da minha história. Ele me perguntou se eu tinha conseguido alguma coisa e se indignou quando lhe contei que nem tinham me deixado entrar. No mesmo instante um cara de moto estava saindo para almoçar, o Sombra o parou e rapidamente contou o que se passava, ele falou que podia me ajudar, disse para esperá-lo voltar do almoço - esse almoçava mais tarde - e depois conversávamos melhor. Depois fui saber que o Sombra era treinador de ciclismo e o cara da moto se chamava Jesus Castro e era o presidente do tal IND.

Esperei 2 horas e subi para falar com o Jesus, quando cheguei ao escritório dele ele me perguntou: "Você já fez tudo o que precisava fazer na Venezuela?", eu não entendi direito o porquê da pergunta mas disse que sim, ele então falou: "tem um avião do governo da Venezuela que parte para Havana amanhã de manhã e você pode ir nele". Ele me explicou que esse avião levava alguns pacientes que são operados em Cuba e também os médicos cubanos que trabalham aqui no programa Barrio Adentro. Saí de lá com um largo sorriso no rosto e agradecendo a Jesus com a maior devoção que me é possível, e também ao Sombra, sejamos justos.

Cheguei cantando alegremente na casa do Rafael e fui logo arrumar as coisas, tratei de desmontar a bicicleta todinha e deixá-la o mais compacta o possível, a Gaia pra viagem. Prendi os alforjes, a barraca e o saco de dormir de forma a fazer um só volume, da melhor forma possível pra montar a gaia e tudo o que nela estava montado, no meu lombo. Fazer isso me tomou boa parte da noite. O avião sairia as 11 da manhã, então era bom eu chegar às 9 ou até antes. Felizmente o Rafa se dispôs a levar-me até o aeroporto, que fica em uma cidade vizinha chamada La Guaira, a uns 60 km de Caracas. Mas como ele tinha um compromisso em Caracas às 8 da manhã, ele me deixou lá e voltou antes disso.

Cheguei no aeroporto às 6 horas da manhã e fui logo me informar sobre o vôo, a pessoa que eu deveria procurar não estava lá, e ninguém sabia me dizer de onde nem a que horas o avião saía. Depois de muito tempo, descobri que o vôo saía mais tarde, mas não tinha um hora exata. Fui saber também que eu tinha que ir para um outro terminal, que ficava a mais de 1 km de onde eu estava. Tentei carregar tudo numa vez só: violão, bicicleta e malas, mas depois de alguns poucos passos percebi que não tinha condições, era muito peso. Tive que fazer duas viagens, e mesmo assim foi bem sofrido, fiquei com dor nas costas por quase uma semana depois daquele dia. Depois disso passei a considerar a Gaia ainda mais por ter me ajudado a chegar até aqui. Bom, mas pra encurtar o causo, fiquei o dia todo andando de cima pra baixo naquele aeroporto e o avião saiu só às 10:00 da noite, e eu não estava dentro dele. Pela pouca informação que me deram o vôo lotou e não tinha mais lugar pra mim. Quando por fim eu me convenci que não ia pra Cuba naquele dia, já não tinha mais ônibus pra voltar pra Caracas. Eu não iria ligar pro Rafael ir me buscar porque seria muito abuso, procurar um hotel por perto também estava fora dos meus planos. Na verdade eu estava tão doído que qualquer plano que incluísse carregar toda a minha tralha por mais de dez passos estava excluído. Eu já havia me convencido de que não iria jantar, pois a praça de alimentação ficava no outro prédio, e que iria dormir em uma daquelas cadeiras do saguão do aeroporto, realmente não era a coisa mais confortável do mundo, mas... fazer o quê.

Quando eu estava carregando a minha tralha para uma cadeira um pouquinho mais recolhida, encontrei um cara com quem eu havia conversado uns momentos antes. Acho que, por pena, ele me ofereceu uma carona até o centro de Caracas. Eu fiquei pensando se seria melhor dormir ali naquela cadeira, que já estava sorrindo pra mim, ou ficar perdido no centro de Caracas com toda aquela bagagem. Como cautela nunca foi o meu forte, acabei indo com ele. Pra minha sorte ele resolveu me deixar lá na casa do Rafael, o lugar mais próximo do que eu poderia chamar de "casa", no caminho ainda ganhei uma janta. Interessante pensar que mesmo apesar de quase tudo dar errado naquele dia, me senti o mais afortunado só por poder dormir deitado e com a barriga cheia.

Outra vez eu longe de casa e chegou a época mais nostálgica do ano. Os vizinhos lá da rua do Rafa me convidaram para passar o natal com eles e tinha também a opção de ir para a ELAM. Escolhi ficar com os brasileiros. Cheguei na escola bem na hora da janta. A fila do refeitório estava como nas outras vezes, mas nesse dia havia música, tocava um reggaeton, música que mais se ouve por aqui. A fila continuava comportada, ninguém se atrevia a ir dançar e perder o lugar, e os que já tinham comido também não ficavam por lá. Até que de repente começou a tocar um samba. Foi como um chamado. Os brasileiros que estavam na fila saíram, os que estavam comendo se levantaram e foram todos para o meio do salão. Mesmo eu que não sei sambar também me meti no bloco. Naquele momento me senti abençoado por estar ali, me senti em casa. Longe de mim ser ufanista, mas pensei comigo... "brasileiro é diferente mesmo, sempre os mais animados"

Depois ainda rolou forró no quarto e o mais perto que pudemos chegar de uma ceia de natal. Foi ótimo poder dizer Feliz Natal em vez de Feliz Navidad, não matou a saudade da família e dos amigos, mas pelo menos na saudade do Brasil deu um jeitinho. Fiquei na ELAM do dia 23 ao dia 26.

Eu já estava há mais de cinco meses sem fazer a barba, tinha dado algumas aparadas nela mas nada radical, então, por algum motivo resolvi me desfazer dela e pegar um sol nessa parte da cara. E também, meu visual já estava ficando um tanto quanto pitoresco, ou talvez quixotesco, ou sei lá, mas antes que em vez de Jesus me passassem a chamar Aiatolá, resolvi passar a gilete nessas comparações. E falando em Jesus, continuei tentando arranjar um outro vôo disponível através do IND mas agora, até Ele estava usando a técnica do 'me liga amanhã'.

Como a possibilidade de arranjar o translado até Cuba nesses dias de festas eram muito pequenas e também, ninguém é de ferro, resolvi ir passar o ano novo na praia com a galera da ELAM. Peguei a barraca e algumas roupas e voltei pra lá no dia 28. Tivemos que pegar 2 ônibus e um barco para chegar até Chuau, apesar de que a palavra ônibus é um elogio demasiado grande para nomear algumas das "coisas" que se usa para transportar gente aqui na Venezuela. Além de a maioria dos ônibus estarem caindo aos pedaços de tão velhos, eles são "decorados" de acordo com o gosto do dono, então o que se vê são uns verdadeiros carros alegóricos.


Chegamos em Chuau no final da tarde. Ficamos acampados lá até o dia 2. O clima estava ótimo, sol o dia todo e céu estrelado todas as noites. Ganhei até umas trancinhas no cabelo (foto). Como a escola ajudou com a comida e também não gastávamos nada com banho já que havia um rio de água transparente bem próximo, a viagem saiu bem econômica. O gasto dos 6 dias foi praticamente só o transporte, mais ou menos 50.000 bolívares, que no câmbio que eu troquei equivalia a pouco mais de R$ 20,00.


Queria aproveitar pra deixar aqui um abraço com muito carinho para todo o pessoal da ELAM (digo, os brasileiros, que foram os que eu tive a oportunidade de conhecer), eu colocaria o nome de cada um aqui se não fossem muitos e se a minha memória fosse boa. Mas com certeza não me esquecerei de como fui bem acolhido, ao ponto de passado alguns dias eu já me sentir entre velhos amigos.



Só pra constar, neste último final de semana, eu e o mesmo pessoal da rua, desta vez conseguimos chegar no topo do Pico Oriental do Ávila a 2600m do nível do mar. Saímos às 5 horas da manhã e voltamos - meio arrebentados - só às 8 horas da noite.



Então, pra resumir a conversa - acho que escrevi demais dessa vez - ainda estou na espera pra ir pra Cuba. Depois de tanto tempo pedalando e de ter chegado tão longe (falando nisso, completei 5.000 km), é muito frustrante essa sensação de impotência, de não poder chegar lá pelos meus próprios meios. Talvez eu devesse ter feito uma gambiarra e transformado a Gaia num pedalinho no dia que eu cheguei no litoral e agora já estaria em Cuba há tempos... ou não né... De qualquer forma acho que dessa semana não passa, de um jeito ou de outro eu vou. Talvez seja meio difícil mandar notícias lá de Cuba, então é provável que o próximo relato eu escreva já do conforto do lar. Ainda não sei também como farei ao certo para voltar pra casa, mas vai ter que ser rápido, afinal, dia 11 de fevereiro começam as minhas aulas em Curitiba, e se tudo correr como o planejado, eu estarei lá (ou aí - pros meus tão saudosos conterrâneos) nesse dia, ou no máximo com uma semana de atraso, como de costume. Até mais ver...









Matéria na Nueva Prensa de Guayana.


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Surf na Gaia...

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

De Venezuela

Escrevo de Ciudad Guayana, também conhecida como Puerto Ordaz, Venezuela. Até aqui foram 4230 km rodados, agora falta pouco, só mais uns 800km até Caracas e de lá tento arranjar um barco que me leve até Havana.

Aos relatos.

Depois de uma semana parado em Boa Vista, resolvi seguir em frente. Pedalei até anoitecer e amarrei minha rede em uma mangueira. Dormi ao lado de uma lanchonete apagada, já longe da civilização. Nos últimos dias eu tenho me acostumado a dormir na rede, é mais fresco e dá menos trabalho do que a barraca. No outro dia pedalei uns 30 km e um cara em uma Pampa encostou e me ofereceu carona. Percorri 150km com ele, poupando um dia de pedalada até a fronteira. Além de ganhar a carona mais um refrigerante e um pastel, conheci uma profissão diferente, a de pampeiro.


O que eles fazem é comprar gasolina na Venezuela e vender em Boa Vista. São 230km da cidade até a fronteira, mas mesmo assim o negócio é bem lucrativo. O litro de gasolina nos postos de Boa Vista custa em torno de R$ 2,50 e na Venezuela sai por mais ou menos R$ 0,07 então os pampeiros compram por esse preço e vendem por uns R$2,00. Mas é claro que o contrabando de gasolina é proibido. É permitido atravessar a fronteira apenas com o conteúdo do tanque, não se pode levar galões a mais. Aí é que entra o motivo de eles serem pampeiros. As antigas Ford Pampa 4x4 vinham de fábrica com tanque duplo, com capacidade de 140 litros. Então se o transporte fosse feito com outro carro qualquer não compensaria, porque a gasolina gasta na ida e na volta é praticamente o que cabe em um tanque normal. E se por acaso alguém aumentar o tanque de um carro qualquer pra fazer o transporte, seria enquadrado como contrabandista, mas no caso da Pampa não tem nada fora da lei. Por isso que centenas de pampas - caindo aos pedaços , diga-se de passagem, mas com tanques duplos - fazem esse trajeto todos os dias. Naturalmente que também é proibido vender gasolina no fundo de quintal em Boa Vista, mas isso já são outros quinhentos...


Parei uma noite em Pacaraima, cidade colada na linha da divisa, e acampei em um Centro Cultural que havia lá. No dia seguinte passei na Polícia Federal para carimbar a saída do Brasil no passaporte e lá encontrei um americano que estava fazendo o caminho inverso do meu. Ele morou 4 anos na Venezuela e agora ia conhecer o Brasil. Conversamos um pouco e ele fez questão de falar e repetir para eu conhecer um vilarejo chamado Paujy, que segundo ele, era um dos lugares mais bonitos de toda a Venezuela. Ele me deu o nome de duas pessoas que poderiam me hospedar lá. Ele foi embora e eu segui meu caminho, algumas poucas viradas no pedal e eu me despedi do Brasil.


Estranho essa coisa de fronteiras, cruza-se uma linha e de repente tudo muda, a língua, o dinheiro, a comida, os costumes, as feições, parece que até a paisagem e o clima também mudaram, porque uns 10 minutos depois de chegar na Venezuela fui presenteado com uma chuva que há dias não vinha.


Pedalei mais alguns quilômetros e cheguei em Santa Helena. Descobri que a cidade que o Americano falou ficava fora do meu caminho, a 80 km para oeste, e depois tinha que voltar pelo mesmo caminho. Fiquei bem na dúvida se ia até lá ou não, seriam 160 km para voltar aonde eu estava. Pensei bem e resolvi ir mesmo assim. Comprei umas comidas e saí de Santa Helena no outro dia. Andei uns 15 km e de repente acabou o asfalto, começou uma estrada de terra com umas subidas tão íngremes que não dava pra pedalar, só empurrando mesmo. Pra ajudar choveu e enlameou tudo. Consegui percorrer só metade do caminho e dormi em uma pequena comunidade indígena. Dessa vez sem ameaças, fui bem recebido. No outro dia, mais 40km, subidas fortes e chuva de novo. Cheguei em Paujy no começo da tarde. Antes de ir procurar os contatos que o americano havia me passado, um cara de bicicleta parou para conversar comigo e me convidou para ficar em sua casa. Ele também já tinha viajado de bicicleta e disse que sempre hospedava os cicloturistas que passavam por lá.


Fiquei 3 dias na casa do Wilfrido. O lugar era realmente muito bonito, e de uma tranquilidade fora do comum. Não havia telefone e a energia elétrica só funcionava das 18 às 21 horas, mas não chegava até a casa onde eu estava. Ele tinha então um painel solar que carregava uma bateria para acender as 2 lâmpadas que havia na casa. Tinha também um som e uma TV com DVD, mas quando ligava a TV a bateria só durava 2 horas, então se o filme durasse mais do que isso ou se acendesse uma lâmpada simultaneamente, só dava pra ver o final no outro dia. Lá em Paujy conheci o Benjamin, um músico que me deu um pouso quando eu voltei pra Santa Helena. Conheci também a Arelis que me convidou para ficar uns dias na casa dela aqui em Puerto Ordaz, onde estou agora.


No caminho de volta, como tinha mais descida, consegui fazer em um dia só. Fiquei mais 2 dias em Santa Helena e segui viagem pela Gran Sabana Venezuelana. Por 4 dias pedalei dentro do Parque Nacional Canaima, a paisagem é lindíssima, tem cachoeiras espalhadas por todo o lado, é nessa região que está localizado o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, com 979 m de queda.


No total, de Santa Helena até aqui foram 8 dias de viagem, não pude comer muito bem porque não havia muitos lugares onde comprar comida, mas a paisagem e o sossego compensavam qualquer coisa. De Eldorado, a primeira cidade depois do Parque Nacional, eu pedalei o dia todo para chegar em Tumeremo. Lá dormi em um posto de gasolina e tive que tomar banho com um balde, porque os postos daqui não tem banheiro - que saudades do Brasil. No outro dia cheguei até El Callao. A estrada estava muito ruim neste trecho, não havia acostamento e o movimento era grande. Para piorar a situação, o mato ao lado da estrada era alto e ficava muito perto da pista, em alguns lugares até dentro da pista, e, como que de propósito, eram arbustos espinhentos, então quando passava um carro muito próximo e me forçava a ir mais para o canto me rendia uns bons arranhões. Eu fiquei com a perna e o braço direito todo dolorido e marcado desses encontros com o mato. De El Callao eu continuei mais um pouco, mas a estrada estava cada vez pior e mais perigosa. Resolvi pegar uma carona, ou "agarrar una cola" como dizem por aqui. Consegui bem fácil uma camionete que me levou até Upata, mais ou menos uns 100km. Lá começava a pista dupla e ficou bem mais tranquilo.

Quando eu ainda estava no Brasil, perto da fronteira, ouvi muitas coisas sobre a Venezuela. Além da gasolina barata e dos comentários sobre o Chávez, ouvi dizer que os venezuelanos não gostavam muito dos brasileiros, que não eram muito hospitaleiros, que a polícia era muito corrupta e quando viam um carro brasileiro sempre paravam e cobravam uma propina para deixá-los seguir em frente. Não sei se por eu estar acompanhado pela Gaia, ou por sorte apenas, mas felizmente eu tive uma visão bem diferente desse país. Quanto à hospitalidade, agora eu estou na casa de uma Venezuelana que nunca tinha me visto antes e me recebeu de bom coração. Além dela e das outras casas que eu fiquei, nenhuma vez me negaram um lugar pra acampar ou um pouco de água. E quanto à polícia, várias vezes me pararam na estrada pra pedir documentos, mas nunca me cobraram nada. Uma certa vez que eu parei para descansar em um posto da polícia rodoviária, vi eles pedirem uma melancia de um caminhão que transportava melancias para deixá-los passar. Alguns instantes depois eles me trouxeram uma fatia de presente. Acho que isso realmente tem a ver com o meu meio de transporte. Acho que é pra compensar os banhos de balde e as subidas empurrando.


No dia que estava chegando aqui em Puerto Ordaz aconteceu outro causo interessante. Parei no acostamento pra descansar um pouco. Eu estava no meio de uma subida, pouco inclinada mas muito longa, daquelas do tipo que quando você está distraído, só vê que está subindo quando percebe que está mais cansado do que deveria estar. Era meio dia e meio e o sol estava forte, eu não havia passado protetor solar quando saí de manhã porque naquela hora o tempo estava nublado. Só fui me lembrar disso quando senti o braço queimando. Procurei nos alforjes alguma coisa pra comer, só tinha mais 2 bolachas e bastante água quente. Comi e fiquei descansando por um tempo e esperando o suor secar para passar o protetor. De repente eu ouço umas buzinas e vejo uma camionete velha dando ré em plena estrada movimentada - pensei comigo: "O que que esse animal está fazendo?" Ele voltou de ré por uns 100 metros e parou bem perto de mim. Desceu e veio andando na minha direção. Ele trazia uma caixa com duas bananas, duas ameixas, uma maça, uma tangerina e mais uma caixa de suco. Me entregou tudo. Ele não quis saber de onde eu vinha, para onde eu ia, nada. Me entregou as frutas, me desejou "suerte" e se foi. Mesmo sem entender muito bem o que havia acontecido, eu comi todas aquelas frutas de uma só vez com um sorriso largo no rosto, fazia dias que eu não tinha um almoço tão saboroso. As frutas estavam ótimas, e... o suco de maça... é um capítulo a parte.


Ele estava gelado. Descia pela garganta de uma forma impossível de descrever, não é como tomar um suco que estava na geladeira de casa, ou mesmo um suco feito na hora em uma lanchonete, por mais saboroso que seja. Era uma sensação completamente diferente, infinitas vezes melhor. Aquele suco tinha um quê de especial. O sol estava quente. Ele estava gelado. E eu, estava na beira de uma estrada. Não havia por perto nenhum lugar onde eu poderia comprar um suco - gelado - mesmo que tivesse todo o dinheiro do mundo. Eu estava sentado descansando sob a sombra de uma árvore, e aconteceu o inimaginável... chegou até mim um suco - gelado. Era um milagre, um presente divino, trazido por um mensageiro sob uma chuva de buzinas. E o presenteado era eu... Eu. Me senti o mais especial dos homens, digno de receber uma dádiva dessa magnitude, um suco delicioso - e gelado.

Algumas horas depois cheguei na cidade. Estava procurando a casa da Arelis quando encontrei um brasileiro no sinaleiro. Ele parou o carro do meu lado e rapidamente me fez as perguntas de sempre, mas era um pouco diferente do que o de costume, não tinha aquele ar de espanto e curiosidade, mas um tom de indignação e agressividade, como se de alguma forma eu o ofendesse com a minha estória. Depois, já quase com raiva e num tom de deboche ele me perguntou: "Mas... e o que que ganha com isso?" Na verdade não foi a primeira vez que me fizeram essa pergunta, e nesse tom, já tinha acontecido uma vez ou duas. E nessas vezes eu não pude deixar de perceber uma certa amargura no rosto dessas pessoas, e pensar que talvez sejam pessoas com quem a vida não foi muito complacente.

Pensei em responder pra ele que ganha fugir da mediocridade que a vida pode se tornar, ganha conhecer lugares, culturas, línguas, pessoas, realidades diferentes; aprender coisas que antes nem pensava possíveis, fazer amigos, se sentir parte da natureza, respirar ar puro, fazer exercícios diariamente, conhecer a si mesmo, aprender que precisamos de muito pouco para ser felizes, e que as melhores coisas da vida não custam nada... Pensei em dizer tudo isso pra ele, mas era uma conversa muito longa e talvez ele não estivesse disposto a compreender nada disso. Além do mais o sinal já ia abrir. Então respondi: ganha melancia, outras frutas e suco gelado.

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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Encontros

Primeiro de tudo, sinto muito por ter ficado tanto tempo sem escrever.

No dia em que saí de Palmas, ganhei meu primeiro patrocínio, por assim dizer. Eu sentei para almoçar em um restaurante, e comecei a conversar com um senhor que estava lá esperando a comida. Ele me perguntou de onde eu vinha, para onde eu ia, como de costume. Me passou também umas dicas da Venezuela. Depois ele me perguntou - "mas... você tá maquinado?" eu entendi que ele estava perguntando se eu andava armado ou algo assim e respondi que não. Ele então tira uma nota de 20 reais e põe em cima da minha mesa: “uma ajuda pra sua viagem”. Acho que ele estava perguntando se eu tinha dinheiro. De qualquer forma, não quis recusar a ajuda, me rendeu dois bons almoços.

De palmas eu pedalei só uns 40km e cheguei até um posto da Polícia Rodoviária onde dormi. Lá fui muito bem recebido, ganhando até um nescau. No outro dia fui até Paraíso do Tocantins, cidade que fica na BR-153, chamada de Belém-Brasília. Minha intenção era pegar uma carona de lá até Belém. Nessa hora a Gaia acabou atrapalhando um pouco, porque na maioria dos caminhões, o baú onde fica a carga é lacrado e eles não podem abrir, por isso não tinha onde colocar a bicicleta. Fiquei 2 dias em um posto de gasolina e nada de carona, resolvi ir até a Rodoviária para ver quanto sairia para ir de ônibus. A passagem não era muito cara e não cobrariam nada a mais pela bicicleta. Como eu queria chegar logo em Belém, e não tinha idéia de quantos dias ainda teria que ficar no posto até conseguir uma carona, resolvi pegar o ônibus que sairia em pouco tempo.

Cheguei em Belém somente no outro dia de manhã. O motivo da minha pressa para chegar lá, era porque eu ia encontrar uma pessoa de quem eu já estava com bastante saudades. A Lívia, minha namorada, chegou 3 dias depois. Ela tirou umas férias 'não programadas' da faculadade e foi me encontrar para que fizessemos juntos a viagem de barco até Manaus.

Ficamos alguns dias em Belém e fomos passar 2 dias na Ilha de Marajó, lugar muito bonito e tranquilo. O plano era ir de Belém até Manaus direto, seriam 5 dias para fazer o percurso. Quando fomos comprar a passagem, porém, só tinha um barco que iria até Santarém, levava 3 dias de viagem e lá era necessário pegar outro barco até Manaus. No final das contas foi uma grande sorte ter feito a viagem dessa maneira, porque, além de ser bem cansativo ficar tantos dias em um barco, ainda tivemos a oportunidade de ficar 2 dias descansando em Alter do Chão, que foi com certeza um dos lugares mais bonitos que eu vi até agora na viagem. Eu não sabia, até então, que praias de rio podem ser tão parecidas com as de mar, eu tive inclusive que provar a água pra ter certeza que não era salgada. De Santarém até Manaus foram mais 2 dias, dessa vez era um barco bem menor e também bem menos confortável.

Em Manaus ficamos mais alguns dias pra conhecer a cidade. Desavisadamente, fizemos até um passeio bem de turista. Fomos ver o encontro das águas do rio Negro e o Solimões e, no mesmo passeio, umas caminhadas pela mata para conhecer as Victórias Régias. Tudo no estilo 'caminhe atrás do guia e não se perca', com direito até a adesivinho colado na camisa para saber quem é do grupo. Tipo gado marcado. Uma vez foi o bastante para nos convencermos de que esse tipo de programa não é a nossa praia. Não mesmo.

A Lívia voltou pra Curitiba e eu ainda recebi a visita da minha mãe, que veio passar uns dias em Manaus. Esse período de substituição da companhia da Gaia foi completamente diferente do resto da viagem, sem dormir em posto de gasolina, sem ter que ficar sem banho às vezes, sem comer miojo quase todo dia. Foram uns bons dias de folga do período de vacas magras. Deu pra descansar bastante. Quando fiquei só novamente eu já estava há mais de 2 semanas sem pedalar. Depois de tanto tempo em ônibus e barco, eu nem me sentia mais um viajante de bicicleta. Começar a pedalar de novo me lembrou um pouco o dia da minha partida.

Saí de Manaus no sábado e cheguei em Boa Vista na outra segunda-feira, foram mais ou menos 700 km, fiquei um dia parado apenas em Presidente Figueiredo, cidade famosa pelas cachoeiras. Na divisa de estado entre Amazonas e Roraima passei pela reserva dos índios Waimiri Atroari. São 120 km de estrada dentro da reserva. No meu mapa havia um aviso: "O tráfego é liberado apenas entre as 06 e as 18 horas. Não pare dentro da reserva."

Eu dormi em um restaurante na estrada uns 20km antes do começo da reserva. Cheguei lá às 09 da manhã. Havia algumas casas de fiscalização da Funai e também de venda de artesanato indígena. Um funcionário do lugar, que no caso era um índio, me parou na entrada. Com um português meio arrastado, ele foi direto ao assunto - "se passa de bicicleta índio mata você". Logo chegou outra funcionária, desta vez não índio. Eu expliquei que estava viajando de bicicleta e só queria passar por ali e continuar... mas também não tanto assim. Ela perguntou se eu tinha pego a autorização em Manaus. Eu não sabia que precisava, afinal, se para passar de carro ou moto não há nenhuma restrição, porque de bicicleta seria tão diferente? Ela me perguntou se eu conseguiria percorrer os 120 km até as 6 da tarde, falei que sim, a não ser que tivesse algum problema com a bicicleta. Depois de passar um rádio para algúem, ela me liberou, mas não sem antes me falar as regras da reserva, não parar, não conversar com os índios, não tirar foto, não filmar, não acampar...


Meio que sem perceber, eu estava pedalando num ritmo um pouco acima do normal. A paisagem era belíssima, de toda a viagem esse era com certeza o trecho de mata mais preservada, onde se podia ouvir com mais clareza os sons da floresta; e se podia ver uma infinidade de pássaros, lagartos, antas, pacas e etc. Eu olhava curioso para dentro da mata na esperança de ver um índio, ou talvez uma índia, mas ao mesmo tempo me vinha um certo medo de ver uma flecha vindo na minha direção antes de qualquer outra coisa. Uma frase não me saía da cabeça, "índio mata você". Me dei conta que eu estava realmente meio tenso, pedalando apressado, pensava - "a mulher falou que eu podia passar, mas sabe lá... será que eu não devia ter ouvido o índio, afinal ele era um deles". Depois de uns 30 km pedalados, e em meio a essas indagações e também outras de se eu conseguiria realmente percorrer todo o trecho antes de anoitecer, a mesma moça encosta a camionete da Funai.

- Você não quer pegar uma carona com a gente até o outro lado da reserva? perguntou ela.

Eu percebi que não era bem um convite, não sei se ela conversou com outra pessoa, mas por algum motivo ela mudou de idéia quanto a eu ir pedalando. Aceitei sem discutir. Paramos em um posto de controle, que ficava localizado no meio da reserva, e lá ganhei um almoço junto com os funcionários.


Depois do almoço fui deixado em Jundiá, uma vila na beira da reserva. Por um lado eu estava aliviado, não tinha mais muito o que temer; mas por outro um pouco frustrado, meu lado aventureiro e meio inconsequente queria ter visto o que aconteceria na travessia. Pedalei mais 40km até uma vila chamada Equador. Um pouco antes de chegar lá havia um monumento na latitude 0º, eu estava agora oficialmente no hemisfério norte. Junto a esse monumento tinha uma placa comemorativa sobre a construção da estrada entre Manaus e Boa Vista, e também em homenagem aos militares que morreram nessa empreitada. Algumas horas antes, a moça da Funai me contou um pouco da história daqueles índios e da construção da estrada na década de 60 e 70.

Sob o mote do tão falado progresso do regime militar, essa estrada seria uma das maneiras de levar o 'desenvolvimento' para a região norte. O caminho mais lógico para a futura estrada cruzava uma área indígena, mas claro que isso não era problema para os militares. Contam que na medida que as máquinas iam progredindo selva adentro, quando os operadores chegavam para trabalhar de manhã, encontravam os tratores todos amarrados com cipó, numa inútil tentativa dos índios em conter aqueles 'monstros' que adentravam na floresta destruindo tudo o que eles conheciam. Mais tarde vieram os conflitos com os trabalhadores da estrada. Depois disso o exército entrou em cena para combater as lanças e flechas com balas e bombas. O número de índios Waimiri-Atroari, que era de aproximadamente 2 mil antes desses encontros, ficou reduzido a 374 pessoas em 1987. Hoje em dia eles são em torno 1200. Se fossem colocar o nome dos índios mortos precisaria de um monumento bem maior. Outros dois acontecimentos que afligiram a região indígena foi a instalação de um grande projeto de extração de cassiterita, e a instalação da usina hidrelétrica de Balbina, cuja represa atingiu boa parte do território.

No dia que saí da Vila do Equador aconteceu um encontro não muito agradável. Enquanto eu pedalava, em uma descida - por sorte -, senti um inseto pousar na minha perna. Antes que eu tivesse tempo de tirá-lo senti a picada. A dor começou de leve, achei que era uma daquelas butucas, mas rapidamente a dor se acentuou bastante e eu consegui ver que era um marimbondo, e dos grandes. Foi só quando eu tomei a segunda picada na braço, e vi uma grande quantidade dos malditos me sobrevoando, é que eu percebi o que estava acontecendo. A terceira no pescoço foi a mais doída. Saí numa disparada que, imagino eu, tenha sido digna dos melhores velocistas. Por uma meia hora eu pedalei tão rápido quanto pude e não tive coragem de parar, imaginando estar sendo perseguido. A dor era grande, eu gemia homenageando alternadamente cada uma das minhas picadas. Nos dias que se seguiram eu fiquei, digamos assim, hiperresponsivo. O menor sinal de qualquer coisa que voasse perto de mim já desencadeava uma resposta automática de um "sprint" de uns 100 metros. Depois é que eu olhava pra trás pra ver se era um bicho dos mal-intencionados e se tinha mais de um.

Um dia antes de chegar em Boa Vista, dormi em um posto de gasolina na cidade de Mucajaí. A uns 5 km da cidade me deparei com a ponte do rio Mucajaí, como sempre faço nas pontes, parei e dei uma olhadinha pra baixo. Era muito alta - não dava pra pular. Qual não foi meu espanto quando encontrei 2 garotos que moravam nas rendondezas com calção de banho e se preparando pra pular. Eles me explicaram que tinha uma estrutura de ferro embaixo da ponte que ficava uns 3 ou 4 metros mais baixo do que o corrimão, e eles pulavam de lá. Enquanto conversava com eles, ouço um grito e um barulho de algo caindo na água. Era o terceiro rapaz que já estava nesse lugar mais baixo. Depois de alguns minutos de muita reflexão e indecisão, cheguei a conclusão de que não conseguiria ir embora sem pular daquela ponte. Tirei os sapatos e a camiseta e fui com os outros dois, eles afirmaram que também já haviam pulado algumas vezes. Era um pouco complicado pra descer até aquela estrutura, mas nada impossível. Chegamos lá no ponto exato onde era o pulo. O desafio estava posto. Eu já tinha pulado de alguns lugares até bem altos mas, sem nenhuma dúvida, aquele era maior do que todos os outros. Geralmente quando eu vou pular, eu chego, me certifico que é fundo e vou, mas dessa vez não foi tão simples. Eu queria pular mas as pernas não obedeciam, foram bem uns 20 minutos de hesitação que pareciam uma eternidade. Os outros dois rapazes também não pareciam com mais coragem do que eu. Fiquei na dúvida se eles realmente já tinham pulado dali antes. Ficamos um bom tempo naquela discussão do "se você pular eu pulo", mas claro que ninguém ia primeiro. Um deles resolveu voltar, ficamos só em dois. Alguns minutos depois chegou o outro que tinha pulado na hora em que eu cheguei na ponte. Falei pra ele - "vai lá, se você for eu vou em seguida". Ele foi. Eu fiquei. Minha pernas tremiam mais que vara verde segundo a descrição do outro. Mais uns 10 minutos naquele pula ou não pula, e o cara voltou pra pular novamente. Eu pensei em subir e ir embora, tem uma teoria que depois de um certo tempo olhando pra água, se não pulou não pula mais. O cara foi pela terceira vez, assim que ele caiu na água, não sei como, eu consegui dar o tão temido passo a frente. Na sequência, o movimento involuntário dos braços lembrava um pássaro desengonçado, como quem se arrependeu e quer voltar onde estava. O tempo que tardou pra chegar até a água era enorme, com certeza infinitas vezes mais para quem despenca no ar do que para quem olha aquele corpo cair. Mergulhei na água e retornei a superfície já querendo pular novamente, mesmo sabendo que a primeira vez é sempre a melhor. Pulei mais 3 vezes, duas do mesmo lugar - com direito até a foto - e a última de cima do corrimão, esta me rendeu uma bela dor na sola do pé e no queixo.

Cheguei em Boa Vista na segunda-feira a tarde. Um total de 3450 km até aqui. Três dias antes, eu conheci na estrada um figura chamado Zezão, ele morava no sul do estado, mas falou que tinha um amigo em Boa Vista e ele poderia me receber, me passou o telefone do Théo, onde estou agora. Acho que não é das situações mais comuns chegar na casa de alguém e falar "eu conheci na estrada um amigo seu que falou que eu podia dormir aqui", exije mesmo uma certa cara de pau, mas felizmente aqui, como em tantos outros lugares, fui muito bem recebido também.


Um estudante de medicina da UFRR, que ficou sabendo do blog pela matéria que fizeram da viagem no Correio Braziliense, me mandou um e-mail oferecendo qualquer ajuda que eu precisasse aqui na cidade. Quando liguei pra ele, fiquei sabendo que um professor da medicina queria que eu desse uma palestra para os alunos do primeiro ano, contando minhas experiências. - "Palestra? Mas o que eu iria falar?", conversei com ele e ele me explicou que era mais uma conversa, a turma era pequena - apenas 23 alunos - então era para eu contar um pouco sobre o que eu vi nessa viagem. No dia tinha bem pouca gente. Levei algumas fotos, respondi praticamente às mesmas perguntas de sempre e contei alguns causos. Depois me diverti ao saber que eles teriam que fazer um relatório sobre as coisas que eu falei. Nem me deu muita saudades de voltar às aulas.

Parto amanhã e em 3 dias devo chegar em Santa Helena, já na Venezuela.
De lá serão mais umas 2 ou 3 semanas até chegar ao litoral e depois Caracas.

sábado, 22 de setembro de 2007

Eis o Norte

Escrevo de Palmas, Tocantins. Gostaria de ter escrito antes mas nos últimos dias eu me encontrava praticamente incomunicável. Eu estava no Jalapão e lá era bem difícil de encontrar telefone. Internet então ainda não existe por essas bandas.

De Brasília, último lugar onde eu escrevi, segui com destino a Alto Paraíso. A distância entre as duas cidades é de 230 km. O que de carro significaria mais ou menos 3 horas de viagem, para mim foram 3 dias. Alguns podem ver isso como uma desvantagem... levar 3 dias para percorrer uma distância que poderia ser feita em 3 horas... mas eu não vejo dessa maneira. O motivo pelo qual eu viajo de bicicleta é precisamente este. Poder passar devagar o suficiente para acenar para as crianças de olhares curiosos, saber de onde sopra o vento, sentir as inclinações do relevo nas próprias pernas e os caprichos do clima na própria pele e observar a paisagem com toda a calma necessária para realmente ver. Como cantou Cartola: "quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar, eu quero nascer, quero viver". Ou seja quando se vai de bicicleta o que vale mesmo é a jornada e não o destino, mais ou menos assim como a vida.

Nessa primeira noite dormi em uma chácara de um amigo do Joaquim de Brasília. No outro dia acabei saindo só às 5 da tarde e parei às 10 e meia em um armazém de grãos perdido no meio da estrada, longe de qualquer civilização. Como estava ainda naquela fase de retorno às atividades - desde a semana parado em Brasília - me cansei bastante e não estava com muita disposição para armar a barraca. Estendi o saco de dormir em baixo de um telhadinho e deitei ali mesmo. O sol, incidindo diretamente sobre meus olhos, me acordou pontualmente, sem a menor possibilidade de pedir mais dez minutos.

Quando levantei dei de cara com o segurança do lugar. Imaginei que ele fosse me enxotar e já fui me adiantando e dizendo que estava de saída. O sorridente rapaz me ofereceu um café quentinho e ficou conversando comigo enquanto eu comia meu café da manhã. Pedalei o dia todo até anoitecer. Da estrada avistei uma luminosidade ao longe e achei que fosse a cidade de Alto Paraíso. À medida que fui me aproximando vi que era uma luz diferente, mais avermelhada. Andei um pouco mais e vi perfeitamente o contorno do fogo consumindo as montanhas. A cidade ficava bem próxima de onde queimava. Foram 102 km naquele dia para chegar até Alto Paraíso - cidade base para a visitação da Chapada dos Veadeiros. Lá fui procurar o Tom das Ervas, um curandeiro que mexe com plantas medicinais, produz xaropes, tônicos, garrafadas e por aí afora. Eu havia pego o contato dele com um discípulo seu que eu encontrara na estrada alguns dias antes. Não foi difícil achá-lo e ele me deixou dormir lá uma noite.
Como o Tom precisava ir a algum lugar, tive que sair bem cedo e não sabia ao certo qual seria o meu rumo para aquele dia. Fiquei perambulando um pouco pela cidade e parei no centro de atendimento ao turísta para ver se decidia alguma coisa. O lugar ainda estava fechado então tentei em vão dormir mais um pouco em um banco de praça. Logo chegou uma menina com uma mochila nas costas, a Melina. Conversamos um pouco e ela me contou que havia acabado de chegar e só tinha aquele dia para conhecer alguma coisa por lá. Voltaria para Brasília naquela mesma noite. Algum tempo depois chegou o guia. Ele nos explicou os vários passeios que poderiam ser feitos, mas o preço de nenhum deles me apeteceu muito. Para ir até uma cachoeira por exemplo o preço do guia com carro era R$130 a serem divididos pelo grupo. Como estávamos só nós dois seria 65 cada um. A Melina tentou me convencer a ir com ela - mas gastar em algumas horas mais do que eu tenho gasto em uma semana de viagem estava fora dos meus planos. Eu dispensaria esse luxo de guia e aluguel de carro e iria de bicicleta mesmo até algum lugar que tivesse que pagar muito pouco ou nada. Eu fiquei por ali analisando as opções e enquanto isso ela fechou o passeio com o guia. Iria sozinha mesmo. Quando eles estavam já de saída, ela, não sei se por compaixão ou só pela companhia mesmo, me perguntou se eu não queria ir junto. Como ela já tinha pago não faria diferença alguma se mais alguém fosse. Com muito gosto aceitei o convite.

O passeio escolhido foi a cachoeira do Macaquinhos. Ficava a 40 km da cidade. Na verdade eu não sei se teria me animado a pedalar 80 km ida e volta se essa oportunidade não tivesse aparecido. E com certeza teria deixado de conhecer um lugar maravilhoso. Haviam várias cachoeiras e, pra quem gosta – como é definitivamente o meu caso, alguns lugares bem altos para se aventurar a pular na água. Entretanto era necessário confiar na palavra do guia à respeito da “fundura”. Como confiança é fundamental para qualquer relação... fui... e não me arrependi. Tinha também boas vias para escalada onde não precisava de corda porque a água fazia a segurança. Ficamos algumas horas por lá e com muito pesar voltamos para Alto Paraíso.
Eu peguei a bicicleta que havia deixado na casa do guia, e segui rumo São Jorge, onde fica a sede do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Levei bastante mantimentos para poder acampar em algum canto e tentar fugir dos preços de turista. Os primeiros 20 km eram asfaltados, mas os 16 seguintes eram puro pó. Quando eu estava a alguns km da cidade um sujeito que vinha de carro encostou do meu lado e fez as perguntas de praxe, perguntou também onde eu iria dormir quando chegasse a São Jorge. Ele era dono de um albergue lá(dessa vez aqueles da juventude) e me passou os preços: 35 para o albergue e 20 para camping. Acho que ele percebeu pela minha cara que eu queria gastar menos. Ele então ofereceu para eu ficar uma noite de graça. Percorri os últimos km já bem mais tranquilo, sabendo que não precisaria mais caçar lugar pra dormir.

Cheguei na cidade e fui até a Casa da Sucupira, o albergue do René. Conversamos bastante e depois ele estendeu o convite para até o final do feriado. No primeiro dia, 5 de setembro, como o Albergue estava vazio eu dormi no quarto, depois ainda fiquei mais duas noites na barraca. Conheci o Carlos de São Paulo e por 2 dias nós tentamos ir até o parque da Chapada mas não pudemos entrar devido ao incêndio que há vários dias consumia a mata.

Nessa minha andança pelo cerrado já passei por vários incêndios. O fogo parece fazer do ciclo da vida por aqui. É muito interessante ver que em cima do preto do carvão brota o verde das folhas. Fiquei sabendo que praticamente todo ano tem vários desses incêndios. O pessoal daqui fala que é até bom que queime todo ano porque, nos locais que ficam 2 ou 3 anos sem queimar, quando o fogo vem se alastra com muito mais força e acaba com tudo, até as árvores mais altas que geralmente resistem aos incêndios menores. Nesse sentido muitas pessoas aqui põe fogo nas próprias terras como forma de controle. Outras vezes é para fazer pasto para gado mesmo. Infelizmente muitas vezes perde-se o controle e originam-se grandes incêndios como esse que assolava o Parque Nacional. Outro problema é que a cada ano a estação da seca está aumentando e a da chuva diminuindo.

Naquele primeiro dia que eu estava em São Jorge tudo estava bem tranquilo e sereno, praticamente só haviam os habitantes locais e tudo andava na típica calmaria de cidade pequena. Isso somado à beleza natural do lugar faziam um ótimo ambiente para descansar, pensar na vida, contemplar a natureza... Mas de repente era 7 de setembro. E se por um lado o feriado fez desabrochar aqui nesse lugar tão isolado as mais formosas flores do cerrado, por outro lado com elas vieram os mais feios bichos. Com seus tórax bombados e propositadamente expostos, seus carros com som turbinado, tocando música num volume incompatível com a paz coletiva. E por algum motivo, por mais que eu torcesse com todas minhas forças eles nunca tocavam Chico Buarque. Até congestionamento se via na ex-pacata cidade. Resolvi fugir de lá ainda antes do final do feriado. (Aproveito pra deixar aqui um abraço pro João Paulo, René, Carlos e toda galera que eu encontrei lá no camping).

Depois de ter deixado a Gaia descansar por 2 dias voltei até Alto Paraíso e saí em direção ao meu próximo objetivo, o Jalapão. Nesse caminho de 7 dias de pedalada, acampei na praça central de Teresina de Goiás e outra noite em um posto de gasolina em Monte Alegre. No dia 10 cruzei a divisa GO - TO e dormi em Arraias - Agora já oficialmente na região Norte desse Brasilzão.

E quanto mais pro norte eu vou, mais insuportavelmente quente tem ficado. Tem sido necessário evitar ao máximo pedalar perto da hora do almoço. Um dia desses eu fiz a besteira de querer enfrentar o sol. Ao meio dia eu me encontrava no meio de uma estrada entre o nada e o lugar algum. Sombra pra descansar só mesmo em miragens. Parar não era uma opção. Nas descidas, o bafo quente que vinha no rosto era semelhante a quando você se agacha em frente ao fogão e abre o forno para ver se o bolo já está pronto, mas sem o cheirinho bom. Não preciso nem dizer que quando não era descida a coisa ficava consideravelmente pior. Daí era como se eu fosse o bolo - mas meu cheiro também não era bem aquele. Além da temperatura alta, que chegou a marcar 44ºC um dia desses, tem ainda esse problema que a vegetação do cerrado (ou talvez aqui já esteja mais pra sertão) é muito baixa e muitas vezes tem que andar vários quilômetros até encontrar uma sombra "meia-boca" para descansar. A maioria dos rios e córregos que cruzam a estrada ficam secos nessa época do ano. Nesses dias, a água que eu levo na bicicleta acaba ficando numa temperatura que cai indigesta no estômago, como um chá sem açucar e sem gosto. Ou, na verdade, até fica um gostinho, o do plástico da garrafa que fica amolecida parecendo que vai derreter. Por tudo isso, eu tenho pedalado bastante à noite. Como as estradas aqui nessa parte do sul do Tocantins são boas e muito pouco movimentadas, fica bem mais agradável de andar depois que a lua aparece e o sol vai esquentar a água dos ciclistas no outro lado do mundo. Além do que... "não há ó gente ó não luar como esse do sertão".

No dia que saí de Arraias, a pedalada foi particularmente agradável. Comecei às 16:30 e logo nos primeiros quilômetros vi a placa que eu mais gosto: "Atenção: Longo trecho em declive". Anoiteceu pouco depois da descida e a estrada estava quase deserta, de meia em meia hora mais ou menos passava algum carro. Num dado momento eu parei pra descansar e sentei no asfalto, logo passei para uma posição mais confortável, deitei. Devido ao meu cansaço, o asfalto ainda quentinho parecia tão macio quanto a minha tão saudosa cama. E nada melhor do que deitar, pois não é deitado que se vê as estrelas? E como é absurdamente mais estrelado o céu nesses lugares distantes das luzes das cidades. A ausência de qualquer barulho que não o do mato completava o espetáculo. Me dei conta que era melhor tomar o cuidado de não cair no sono, porque se algum carro passasse enquanto eu estivesse dormindo no acostamento, era bem capaz de parar para saber o que estava acontecendo. Afinal, ninguém em "sã" consciência deita na beira da estrada para contemplar as estrelas.

De Arraias segui até Conceição do TO onde dormi em um posto. Estava com preguiça de armar a barraca então tentei dormir na rede mesmo, fiquei insistindo por umas 2 horas até me convencer de que não conseguiria dormir na rede e teria que montar a barraca. De lá fui até Natividade e acabei ficando em um dormitório de R$10. Já fazia uns 40 dias que eu não pagava nada pra dormir, mas 10 reais para ter um chuveiro, cama e café da manhã (leia-se pão com manteiga e nada mais) até que estava bem pago. Quando eu estava de saída, uma moça veio limpar o quarto onde eu havia dormido; nisso, o dono do hotelzinho fala pra ela, "nesse aí nem precisa trocar o lençol, ele só dormiu uma noite mesmo".

De Natividade peguei estrada de terra novamente. Não consegui chegar na próxima cidade então dormi na chácara do "Preto", um cara que eu havia encontrado na estrada algumas horas antes. Ele, já prevendo que eu não conseguiria chegar na cidade naquele dia por causa das subidas e da areia na pista, mas sem querer me desanimar, me explicou certinho como chegar na sua casa, caso fosse necessário. Foi. A estrada estava sofrida o suficiente até para eu reavaliar a necessidade de tudo que eu estava levando. No outro dia deixei algumas coisas de presente para o Preto.

No dia 14 cheguei em Ponte Alta, já na região do Jalapão. Uns 20 quilômetros antes de chegar na cidade, um cara em uma Toyota, motorista da prefeitura da cidade, se solidarizou e me ofereceu uma carona. Nem pensei duas vezes. Quando cheguei, tirei a bicicleta da carroceria e fui procurar um lugar pra dormir. Minha barraca já estava precisando de uma boa lavada então eu não tive muita vontade de dormir nela. Fui procurar uma pousada. Na primeira o preço era 50 reais, quando estava indo procurar outra, o Osvaldo, o cara da Toyota, me encontrou na rua e falou que se eu não me importasse em dormir em casa de gente humilde, poderia ficar na casa dele. Aceitei o convite e fiquei por lá 3 dias.
(Uma das coisas que mais me impressiona e me encanta nessa viagem é a hospitalidade do povo brasileiro. Já perdi as contas do número de pessoas que me ajudaram. Alguns conhecidos, mas na maioria das vezes, completos desconhecidos. Me dão abrigo, refeição ou um copo de água apenas. Outras vezes somente algumas sinceras palavras de apoio e carinho e sempre um acolhedor sorriso no rosto. Não sei se é esse par de rodas com mochilas empilhadas, ou essa contagiosa sensação de liberdade que desperta ou aumenta essa hospitalidade, de qualquer maneira sei que amo cada dia mais esse povo brasileiro.)

Em Ponte Alta dei uma folga para a Gaia, várias pessoas me deram o mesmo conselho de não tentar pedalar nas estradas do Jalapão devido a areia. No meu próprio mapa, havia uma advertência, "As estradas de terra do Jalapão tem trechos arenosos que exigem o uso de veículos 4x4". Depois de sofrer um bocado nas subidas do trecho entre Natividade e Ponte Alta, não foi com muito pesar que fui atrás de uma carona. Eu queria ir até o município de Mateiros, onde tem o fervedouro e algumas cachoeiras, e depois voltaria para Ponte Alta novamente. Acordei cedo e fui andar pela cidade para me informar se alguém estava indo pra Mateiros e poderia me levar junto. Consegui um caminhão que ia para lá às 8:00 da noite. Deixei a bicicleta na casa do Osvaldo e fui. A distância até Mateiros era de 160 km, imaginei que levaria umas 2 horas para chegar. Foram mais de 5, isto porque não atolou nenhuma vez. Estávamos em 4 dentro da cabina. O ventiladorzinho do motorista definitivamente não dava conta do calor que fazia lá dentro. Viajar com as pernas apertadas e revezando quem encostava as costas no banco cansou quase tanto quanto pedalar. Chegamos as 2 da manhã, os outros tomaram seus rumos e eu fiquei dormindo dentro do caminhão.
Assim que o sol surgiu eu fui atrás de um jeito para chegar até o fervedouro, ainda faltavam 30 km. Havia a possibilidade de ir caminhando, mas, com certeza seria a última das minhas opções. Fiquei uma hora na estrada para tentar pegar uma carona e nenhum carro passou. Depois tentei alugar uma moto mas seria muito caro. Saí perguntando para o povo se alguém iria pra lá. Acabei conseguindo uma carona a troco de uma ajudinha para a gasolina. A senhora que me levou estava indo colher capim dourado. Mais uma pequena trilha e eu estava lá. Até então eu não sabia muito bem do que se tratava esse tal fervedouro. Era uma piscina, de água borbulhante e cristalina e fundo de areia, perdida no meio de algumas bananeiras. Nos primeiros passos dentro da piscina não havia nada de diferente, o chão de areia era firme como no mar. Porém, mais alguns passos para frente e revelava-se um poço sem fundo onde se afundava e era imediatamente lançado de volta à superficie. Seria falha qualquer tentativa de expressar a sensação produzida por aquela água quente brotando do chão com pressão suficiente para fazer qualquer coisa flutuar. E isso tudo no meio de uma região quase desértica de tão seca. Ainda caminhei mais uns 10 km até uma pequena cachoeira que ficava próxima do fervedouro, mas, depois daquilo, qualquer cachoeira se tornava banal como uma cachoeira qualquer.
Da cachoeira consegui uma carona de volta até Mateiros com o pessoal da Naturatins, orgão responsável pela preservação ambiental do estado. Eles estavam lá para fiscalizar a colheita do capim dourado, uma espécie de capim que só existe no Jalapão e é utilizada para confecção de artesanato. Nos últimos anos houve uma explosão de procura pelo capim dourado, em consequência, a retirada descontrolada fez diminuir muito a quantidade dessa planta, ficando em risco de extinção. Por isso agora o período de colheita é restrito a determinadas épocas do ano, e agora não era uma delas. Evitei de comentar com os caras sobre a minha carona de algumas horas antes.
Cheguei em Mateiros a tempo de encontrar o mesmo caminhão que tinha me levado até lá, já de saída para voltar a Ponte Alta. Dessa vez não havia lugar na cabina então eu fui em cima da carga. Deitei lá e fiquei confortávelmente instalado entre dois sacos de milho, pernas esticadas, vento no rosto. Ainda fiquei de um jeito que não era necessário nem me segurar em nada. Consegui dormir boa parte da viagem. Fiquei lembrando da ida, o calor, as pernas apertadas, os ombros encolhidos... só me lamentei por não ter ido em cima da carga antes. E ainda por cima, ali no milho, pude me privar de ouvir novamete o CD do Arrocha Hits 2000.
Apesar da minha posição privilegiada a volta foi bem mais longa do que a ida. No meio da noite furou o pneu do caminhão e eles não tinham chave para trocar. No final da estória eu acabei pegando outra carona no meio da estrada, que também atolou e eu tive que ajudar a desatolar e cheguei na cidade só às 2 da tarde, com 20 horas de viagem. Dormi na casa do Osvaldo mais uma noite. O filho dele, de 9 anos, disse que me achou parecido com Jesus Cristo. Por que será? Isso que eu nem tenho olhos azuis (lembrei do Nham-de-Jara, ah se fossem os índios... eu também estaria salvo).
No outro dia fui até Porto Nacional, 135 km pedalados, meu recorde de distância na viagem até agora. Só consegui pedalar tanto assim porque choveu e deu uma refrescada no clima. Nesse dia tive um 'pequeno' furo no pneu dianteiro, ainda bem que eu tinha outro reserva. Depois cheguei em Palmas e cá estou. Fui muito bem recebido na casa do Martins, o cara da carona cujo carro eu ajudei a desatolar.
Até aqui completei 2.536 quilômetros rodados. Hoje fazem dois meses e meio que eu saí de casa. Nesse meu caminho muitas pessoas me perguntam com espanto se eu estou viajando sozinho, "mas não é ruim?", "deve ser bom viajar de bicicleta mas com mais gente", "não bate uma tristeza?" Na verdade nas minhas outras viagens de bicicleta eu estava sempre acompanhado por um ou mais bons amigos, e com certeza todas foram ótimas. Mas não por isso essa tem sido pior. Com certeza há várias situações que seriam muito mais divertidas se tivesse alguém pra rir junto e outras que não seriam tão ruins se tivesse mais alguém pra se ferrar junto. Por outro lado, sei que várias coisas boas que aconteceram, oportunidades que surgiram e percepções que eu tive, foram só porque eu estava só. Vi alguém dizer uma vez que quem viaja em grupo fecha-se no grupo, e quem viaja só abre-se ao mundo. Ambas as situações tem seus prós e contras, mas é certo que engana-se quem pensa que viajar só é estar sozinho no mundo. Acho que é melhor o ponto de vista de estar a sós com o mundo. Além do que, quem tem a companhia da Gaia nunca está só.
Meu destino para os próximos dias vai ser Belém do Pará e depois Manaus. Acabei demorando um pouco mais do que eu tinha previsto para chegar até aqui. Minha intenção é chegar em Cuba em dezembro e antes ainda quero conhecer a Venezuela. Sendo assim, vou tentar de agora em diante pegar caronas onde for possível para dar tempo de pedalar um pouco na terra do Chávez.
Até a próxima...

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domingo, 2 de setembro de 2007

Da Capital Federal

Realmente não tenho conseguido atualizar esta página semanalmente como havia prometido. Além da dificuldade de encontrar um computador para escrever, a preguiça também me impede às vezes. Acho que uma vez a cada 2 semanas é mais possível de ser cumprido.

Se me lembro bem a última vez que eu escrevi foi em Caldas Novas, fiquei 6 dias por lá antes de seguir para Goiânia. A casa do seu Sidiney era muito agradável e o bom humor dele também contribuiu para eu ficar tanto tempo. Foi ótimo para descansar, ler, tocar violão e escrever. Conheci as águas termais. A cidade é famosa por ser a maior estância hidromineral do mundo, com águas que brotam do chão com temperaturas de até 60º C.

A distância entre Caldas e Goiânia é mais ou menos 180km, ou dois dias de pedalada. O Sidiney fez questão que eu ficasse hospedado na casa dele lá em Goiânia então fomos de carro. Fiquei apenas 2 dias na cidade, Sid me levou para conhecer alguns lugares. Conheci o André, pai do Goiano - meu amigo do RS - me informei bastante com ele sobre o roteiro para os próximos dias. Tinha duas opções para chegar até Brasília, o caminho mais curto era 209 km, e se quisesse passar por Pirenópolis, cidade histórica de Goiás, aumentaria em 80 km o percurso. Fiquei sabendo que Pirenópolis é uma cidade bem turística e por isso tudo é muito caro, como não gosto de me sentir explorado e de fazer os programas convencionais de turista resolvi ir pelo caminho mais curto e não passar por lá.

No primeiro dia, depois de mais de uma semana parado, tive que passar por uma fase de readaptação - como o pessoal diz por aqui, "esse trem tá pesado dimais " - não consegui chegar tão longe quanto tinha planejado mas fora isso foi tudo tranquilo. Dormi em um posto de gasolina perto de Anápolis. No meio da noite levei um enorme dum susto quando alguma coisa encostou no meu pé através da tela da barraca, depois do grito vi que era um filhote de gato que estava querendo se esconder do frio na minha barraca. O pobre do gato se assustou mais com o meu susto do que eu com ele, saiu correndo tanto quanto pode e não apareceu mais nas redondezas.

No outro dia, com 85 km pedalados desde Goiânia cheguei em Abadiânia. Eu almocei lá e fiquei parado por um tempo esperando o sol baixar. Passei em uma farmácia para comprar um protetor solar - artigo de primeira necessidade aqui nessas bandas - e depois da conversa corriqueira sobre a viagem com o farmacêutico eu saí e fui procurar um lugar pra me acomodar. Algum tempo depois o rapaz saiu da farmácia e veio falar comigo, ele disse, "já que está por aqui você deveria ir até Pirenópolis, vai encontrar um pessoal gente boa por lá, a cidade é cheia de alternativos" Eu agradeci a dica e fiquei pensando, achei estranho o cara sair da farmácia para vir me falar aquilo, peguei o mapa e vi que teria que desviar bastante; e para ir até lá eu já deveria ter pego outra estrada em Anápolis, que seria mais perto. Mesmo assim por algum motivo que eu não sei bem resolvi mudar os planos e ir até lá.

Desviei o caminho e segui rumo a Pirenópolis. A estrada estava ótima, sem buracos e pouco movimento. Anoiteceu e a lua surgiu. Não estava totalmente cheia, mas iluminava meu caminho de uma forma tão intensa que era desnecessário usar a lanterna. O clima também estava ótimo. Alguns poucos quilômetros antes de chegar em Pirenópolis furou meu pneu traseiro. A noite estava tão agradável que eu nem me incomodei com aquela caminhada ao luar. Empurrei a Gaia até um posto de gasolina dentro da cidade. Como toda cidadezinha turística, há placas de pousadas e passeios por todos os lados. Eu nem quis perguntar preços de hospedagem. Já fazia uns 20 dias que eu não gastava pra dormir e não estava querendo recomeçar naquele dia, além de que cada vez mais eu descubro que há outras alternativas, é só estar aberto que as oportunidades aparecem.

Eu fui comer um espetinho em uma lanchonete ao lado do posto, depois do questionário básico a garçonete me perguntou aonde eu iria dormir. Eu falei que ia ser na barraca mas ainda não sabia aonde iria montá-la. Ela então disse que se eu quisesse poderia dormir no quintal da casa dela. Não precisei mais me preocupar com a minha habitação para aquela noite - estranho essa sensação de nunca saber onde vou dormir até a hora que o sono vem, leva um tempo para se acostumar. Consertei o pneu e fui até a casa da moça, ela continuou trabalhando na lanchonete mas os filhos dela estavam em casa, a Vanessa de 9 anos e o César de 7. Conversei bastante com as crianças, elas quiseram saber para que servia cada coisa que eu levava na minha bicicleta-casa. Dormi cedo e de manhã ainda tomei um café com a Sara e as crianças antes de partir.

Quando eu saí ainda não tinha certeza do meu rumo, eu tinha ouvido falar de uma comunidade alternativa que havia perto da cidade e fiquei com vontade de conhecê-la. Mas não sabia se podia simplesmente aparecer lá e também não sabia onde era. Tinha também a opção de seguir direto para Brasília, mas seria meio frustrante ter aumentado consideravelmente o caminho só para passar pela cidade e não conhecer nada. Eu dei umas voltas pela cidade, almocei, e fui até um lugar para usar a internet e ver se achava mais informações sobre a comunidade. Descobri que poderia fazer uma visita e peguei o endereço. Saí em busca do lugar, ficava 7 km afastado do centro da cidade, várias paradas para pedir informação e outras para descansar depois das subidas íngremes na estrada de terra. A vista muito bonita e a tranquilidade da estrada compensavam o esforço.

Por volta das 3 da tarde cheguei na FRATER. Lá só se ouvia o barulho do rio e dos passarinhos. Passei por uma casa e aparentemente não havia ninguém, outra casa e nenhuma alma viva, na terceira encontrei uma alma viva e muito tranquila, o Ede, o cara que fundou a comunidade em 1984. Conversamos um pouco e ele me explicou que a comunidade passou por várias transformações desde que foi criada, até dois anos atrás eles viviam sem luz e antes ainda as práticas de meditação e o vegetarianismo eram regra para todos. Muita gente passou por lá mas agora moram apenas 9 pessoas. Depois o Ede me levou para conhecer o Rodolfo, o responsável pela hospedagem, um psicólogo uruguaio que também chegou aqui na década de 80. Tomei um limonada e bati um longo papo com ele, sujeito muito interessante - emprestando o termo que ele mesmo usou para falar de mim - sem fronteiras na cabeça. Depois conheci a Ieda e o Raul, o cozinheiro da comunidade. Tomei um banho de rio e fui participar da meditação às 18 horas. Assistimos um filme e fui dormir na casa que eles me emprestaram.

No segundo dia lá o Ede gravou uma entrevista comigo para a rádio comunitária da cidade, onde ele trabalha. Almocei no restaurante da comunidade. Tanto o almoço como a diária custavam 5 reais, mas como eles se solidarizaram com a minha viagem não me cobraram pela hospedagem. À tarde fizemos um som na casa do Ede, entre outras estórias ele contou que conheceu pessoalmente o Raul Seixas, esteve na casa dele no Rio de Janeiro. De noite teve meditação e filme novamente. A casa que eu estava não tinha luz, mas isso não foi muito problema, a lanterna dava conta. O único problema era na hora do banho - que acabava sendo o mais sucinto o possível.

No outro dia arrumei tudo pra sair pela manhã. Me despedi do Ede e passei na casa do Rodolfo para ouvir uma fita. Era um som feito com uma cítara improvisada que ele mesmo construiu a partir de um violão quebrado. Fiquei impressionado com a música e a cítara que ele fez, um conhecimento musical enorme de um cara que nunca estudou música formalmente, aprendeu tudo de ouvido, ouvindo Beatles segundo ele. (coloquei um vídeo de uma música dele mesmo)

O Rodolfo também fez suas viagens e tem muitas estórias pra contar. Certa vez ele estava com alguns amigos em um ônibus em algum lugar do Paraguai. O ônibus quebrou e eles resolveram continuar a viagem a cavalo. Depois de algum tempo eles se perderam na mata, e o Rodolfo ainda conseguiu se perdeu dos demais. Foi parar, sozinho, em um tribo indígena. Os índios pegaram ele e começaram a chamá-lo de "nham-de-jara" ou algo assim. Ele não fazia a menor idéia do que eles estavam falando. Os índios trouxeram uma bacia com água e começaram a lavar os seus pés. Naquele momento ele imaginou que a intenção deles era lavá-lo para depois cozinhá-lo e em seguida comê-lo. Acabou que pra sua sorte o ritual ficou mesmo só na lavagem dos pés. Ele disse que na época o seu visual se assemelhava um pouco com o meu, barba e cabelo comprido. Depois os índios trouxeram um panfleto com a imagem de Jesus Cristo e apontavam para ele e para o papel e repetiam "nham-de-jara", "nham-de-jara". Salvo pelo cristianismo. Ele acabou sendo acolhido pelos índios, viveu lá por 2 anos - por opção própria - e aprendeu a falar um pouco do tupi-guarani. Descobriu que "nham-de-Jara" significava Nosso Senhor. No começo eram vários os pedidos para que ele fizesse algum milagre, depois se convenceram que ele não era mesmo o 'Homem'. Mas como já haviam se entrosado bem, deixaram que ele morasse por lá. Ele conta que a estadia lá foi uma experiência antropológica sem igual.

Além dessa o psicólogo, escritor, músico e padeiro Rodolfo tem vários causos para contar, como atestado de um grande homem, passou maus bocados durante a ditadura militar uruguaia na década de 70. O que mais me admirou nesse sujeito foi a sua coerência, apesar de toda sua experiência e conhecimento ele vive como o mais simples dos homens. Sua renda vem dos pães que faz e vende na cidade. Suas posses se reduzem ao estritamente necessário. Ele brincou que na minha bicicleta eu carregava mais coisas do que tinha em casa. Um cara que nunca perdeu o foco do que realmente importa nessa vida. A certeza de uma vida vivida intensamente, sem preconceitos, ganância ou arrogância. Quando ele vai preencher algum cadastro e lhe perguntam o que ele faz, ele responde: Eu faço pão.

Vale dizer que minha intenção era ficar só um dia, depois aceitei o convite para ficar uma noite, depois duas e acabei ficando quatro dias por conta das conversas com o Rodolfo. Valeu a pena ouvir a dica do farmacêutico. Talvez não era bem esse tipo de programa que ele tinha em mente quando me falou para ir até Pirenópolis, mas eu não consigo imaginar como minha passagem por essa cidade poderia ter sido mais proveitosa.

Saí de lá no domingo e peguei a estrada dos pireneus rumo a Brasília, muito calor, sol e subida pela estrada de terra. No caminho dois carros que passaram por mim ficaram com pena do meu penoso ofício de viajante de bicicleta e me ofereceram refrigerante e água. Dormi no terreno de uma casa em construção próximo a cidade de Cocalzinho. No outro dia cheguei em Brasília. Encontrei um outro cara viajando de bicicleta, ele vinha no sentido contrário do meu. Ficamos conversando por um tempo, ele não falava quase nada de português o jeito foi tentar falar inglês mesmo. Contou que saiu há 2 anos de San Francisco nos EUA, passou pela Austrália, Ásia, Europa, África e agora estava já nos finalmentes, ia descer - ou subir, dependendo do ponto de vista - um pouco até a Argentina e depois subir - ou descer - por Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e América Central para depois chegar em casa novamente. Era um desses caras que querem comprovar com os próprios olhos que o planeta é mesmo redondo. Até fiquei com vontade de um dia fazer isso também... quem sabe.

Passei por Águas Lindas de Goiás, mas não se enganem pelo nome, não há nada de lindo naquelas águas. A cidade é das mais pobres que eu já vi. Uma legião de imigrantes miseráveis que vieram para cá em busca de uma vida melhor e não encontraram. Cidade como tantas outras do entorno de Brasília.

Cheguei em Brasília na segunda-feira e fui muito bem recebido na casa da Marina, uma amiga com quem eu não tinha mais contato há 7 anos - interessante que além de conhecer coisas novas esta viagem também está servindo para retomar velhas amizades. Fiquei 6 dias em Brasília, aproveitei para fazer uma revisão na Gaia, que já gritava por óleo depois de tanto pó, e também para dar um jeito nas minhas roupas que já pediam desesperadamente para serem bem lavadas. Queria deixar aqui meus mais especiais agradecimentos para a Marina e a Luciana, a excelente mãe e cozinheira Vera e o grande contador de estórias e poeta Joaquim, que me incentivou e me ajudou bastante com a minha escrita.





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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Notícias do Cerrado

Quando saí de São José do Rio Preto imaginei que poderia chegar até Barretos no mesmo dia (fiz esse caminho mais longo para sair da BR-153, que continuava muito ruim). Depois vi que teria sorte se conseguisse chegar até Olímpia, no meio do caminho. Anoiteceu e nem Olímpia e muito menos Barretos, estava no meio do nada. A estrada também não era das melhores para ciclistas, quando havia acostamento era só de um lado e alternava entre as pistas. Estava meio tenso de pedalar nessa estrada no escuro, mas não passou muito tempo e avistei luzes alguns kilometros à frente. Era um posto de gasolina, o harém dos bicicleteiros viajantes.

Montei a barraca sobre um gramadinho macio. Enquanto estava preparando o jantar um caminhoneiro que estava esperando o borracheiro consertar seu pneu veio e me ofereceu o arroz que ele preparou e tinha sobrado. Foi perfeito pra misturar com o Strogonoff que a Ana me deu lá em Lins. Antônio me fez companhia durante a janta, ele contou que morava em um sítio e trabalhava na roça. Há 9 anos ele vendeu tudo para comprar o caminhão e ir conhecer outras terras. Ele pretende dirigir por mais um tempo e depois voltar para o sossego do campo e passar mais tempo com a mulher e os filhos. É estranho pensar como são passageiros esses contatos, a maioria dessas pessoas que me ajudaram e fizeram parte da minha vida por alguns breves momentos eu nunca mais verei.

Como eu estava bem abastecido de mantimentos pude tomar um café da manhã reforçado, leite, granola, frutas e mingau. Desmontei a minha casa, montei-a de volta na Gaia e peguei estrada perto do horário do almoço. Um mar de cana de açucar além de laranjeiras, seringueiras e um sol forte compunham a paisagem. O calor tornou a pedalada difícil, cheguei a conclusão que nesse dias muito quentes o melhor a fazer é sair bem cedo, próximo às 7 da manhã, pedalar até no máximo às 11, parar para almoçar e só sair após às 3 da tarde. Bem ao contrário do que eu estava fazendo, pegando o sol mais forte do dia.

Quando foi umas 4 horas percebi que o pneu traseiro estava murchando devagar. Parei em baixo de uma árvore, tirei meu banquinho e fiquei contemplando a situação. A preguiça de consertar o pneu naquele calor era grande, nisso o violão olhou pra mim, eu olhei pra ele e não teve jeito.
Enquanto eu tocava na beira da estrada passaram vários ônibus escolares cheios de homens que por alguma razão não pareciam estudantes. Eles me olhavam com tanta curiosidade e acenavam com tanto carinho que me deu a impressão de que viam em mim a possibilidade de uma vida diferente, talvez melhor, talvez apenas uma vida menos miserável.

Toquei por uma meia hora e não diminuiu a preguiça de virar a bicicleta, tirar a roda, pegar as ferramentas, procurar o furo, remendar a câmara, colocar tudo no lugar e o pior - encher o pneu com a bombinha de mão. Me restringi apenas a encher o pneu um pouco mais - já que esvaziava lentamente - na esperança de encontrar um posto mais a frente e usar o calibrador automático. Andei um tanto e nem sinal de posto, o sol não dava sossego e o pneu já bem murcho aumentava consideravelmente o esforço para prosseguir. Depois de uma subida forte apareceu uma barraquinha e uma placa com alguma coisa escrita que aos poucos foi se delimitando: Côco Gelado e Caldo de Cana. Era tudo o que eu precisava para ser feliz naquela hora.

Os dois homens que estavam sentados à mesa puxaram uma cadeira e me convidaram para sentar junto. A conversa fluiu naturalmente, como se fossemos velhos conhecidos. Edinho, o dono da barraca contou vários dos seus causos e disse que ele também tem desse sangue aventureiro. Ele contou que aqueles ônibus escolares carregam bóias-frias, na maioria imigrantes nordestinos que trabalham no corte da cana, serviço dos mais brutos que há segundo ele, que já trabalhou no canavial. Para alguns - poucos eu diria - a cana é sinônimo de progresso, biocombustível, exportação... Para Edinho a cana representa a miséria desse povo.

Mais de uma hora de conversa regada a água de côco e garapa, o sol já estava se pondo e eu resolvi seguir em frente. Quando fui pagar, Edinho se recusou a aceitar qualquer coisa. "Não precisa não, vai com Deus companheiro".

A conversa foi tão boa a ponto de eu esquecer completamente que estava com o pneu furado. Nessa altura ele já estava vazio. Empurrei a bicicleta mais um pouco e como não vi nenhum posto parei para enfim consertar o pneu. Cheguei em Barretos de noite. Fui ao Corpo de bombeiros e mais uma recusa - sem trocadilhos dessa vez (ah e só pra esclarecer eu dormi em cama de sargento mas não com o sargento). Eles me falaram para procurar o Albergue da cidade. Eu imaginei que eles não se referiam a um Albergue da Juventude como alguns que eu já fiquei, mas mesmo assim resolvi ver como era.
Cheguei até o local indicado e fui me informar como funcionava. O Atendente, muito simpático falou:
- É simples, você dá o teu nome, toma um banho, janta e vai dormir.
- Não paga nada?
- Não, não paga nada não. Aqui é pra vocês mesmo, é público.
Pensei comigo, banho, janta e uma cama pra dormir é só o que eu preciso mesmo. Vou ficar então. Depois que eu encostei a bicicleta em um canto ele disse:
- Ah, amanhã antes de sair tem que conversar com a Assistente Social, ou se quiser sair cedo pode conversar agora mesmo.
Enquanto eu pensava porque haveria de conversar com a Assistente Social, ela que já estava de saída veio até mim.
- E então, ela disse.
- Sei lá... viajando de bicicleta, tava procurando um lugar pra dormir e me mandaram aqui... Só isso.
- Então tá, tá conversado, amanhã não precisa me esperar.

O atendente me contou que de dia ele trabalha na manutenção da estrada e há 2 dias já tinha me visto pedalando, nessa conversa eu já entrei na casa, ele pegou meu nome e fez o registro, me levou em um lugar 'mais seguro' para guardar a bicicleta e falou pra eu ir tomar banho. O cheiro da casa definitivamente não era dos melhores, notei que a maioria das pessoas que estavam lá esperando a janta eram mendigos.

Isso tudo aconteceu muito rápido e eu não tive tempo de pensar duas vezes se eu realmente queria dormir ali. Esse questionamento só me veio na hora que eu estava debaixo do chuveiro. O cheiro que preenchia todos os cômodos da casa era mais forte ali. Um cheiro ardido que doía nas narinas, não era somente cheiro de fezes e urina, era o cheiro de todas as secreções humanas já fermentadas pelo tempo e pelo sol, cheiro de quem só tem uma roupa e por isso não pode lavá-la. Cheiro do bicho homem, que não estamos acostumados a sentir.

Enquanto eu me lavava pensei em ir embora depois do banho, eu ainda tinha 20 reais no bolso, poderia pagar um hotelzinho. Mas o que eu diria ao atendente, e pior, o que eu estaria dizendo pra mim mesmo, que estou com medo de pegar alguma doença, que não preciso me misturar a esse tipo de gente, que não sou mendigo e me acho melhor que eles? Não, eu tinha que ser coerente com o que eu penso, não iria sair dali.

Fui jantar. O prato que me deram era uma montanha de arroz, feijão, polenta e macarrão. O talher, uma colher apenas. Uma senhora sentou-se ao meu lado. Perguntou se eu era hippie, depois perguntou de onde eu era. Quando falei que era de Curitiba ela logo perguntou se eu conhecia Santa Catarina. Eu estava pronto para falar das praias, Florianópolis, Camboriú quando ela disse:
- Lá no verão dizem que é show pra catar latinhas...
Pois é, deve ser mesmo, eu é que nunca tinho visto Santa Catarina por esse lado. Ela era catadora de latinhas e estava lá em Barretos para trabalhar na festa do peão de boiadeiro que começaria em alguns dias.

Fui dormir. Era um quarto enorme, umas 25 camas. Deitei como se estivesse em um caixão, imóvel. Não quis me virar para não descobrir que o travesseiro e a cama cheiravam igual a tudo mais que estava ali. Depois de um tempo a curiosidade foi maior e eu virei levemente a cabeça. Me arrependi. Mais pessoas foram chegando e todas as camas foram ocupadas. Em um colchão no chão havia algumas crianças. Tive um certo medo de ser assaltado ou algo assim, mas não havia porque ter medo, eu não tinha nada comigo, só um shorts, uma camiseta e um par de havaianas. Acho que tive medo que descobrissem que eu estava ali por opção, e não por falta delas como todos ali. Eu me senti muito mal por isso. Mas acho que ninguém estava preocupado se eu pertencia àquele lugar ou não, eu era só mais um a se lamentar por estar ali no fim do dia.
Lá por umas 10 e meia o rapaz que cuidava do lugar veio até o quarto, verificou se tudo estava como deveria ser, saiu, trancou a porta e apagou a luz - o único interruptor ficava do lado de fora do quarto. Hora de dormir. Passado algum tempo o odor deixou de me incomodar, eu havia me acostumado. Consegui até dormir um pouco, a noite foi tranquila apesar do coro de roncos. Às 5:30 da madrugada o rapaz vem, acende a luz e destranca a porta. Hora de ir embora.

Finalmente consegui sair cedo como eu queria. Até um pouco mais cedo do que eu queria. Almocei em Guaíra e fiquei um tempo por lá esperando o sol baixar. Já de noite cruzei a divisa SP-MG e cheguei no posto fiscal de Volta Grande. Nesse posto funciona a receita estadual e a fiscalização sanitária. Perguntei ao militar responsável se poderia montar a barraca por ali. Ao contrário de todo bom mineiro ele não se mostrou muito hospitaleiro, falou para eu seguir mais 1 km até o posto de gasolina. Como eu estava bem cansado sentei ali mesmo para tomar água e comer umas bolachas antes de continuar. Nisso chegou o rapaz que trabalhava na fiscalização sanitária, o Júnior, ele também era ciclista e tinha muita vontade de fazer uma viagem de bicicleta. Até deu uma volta na Gaia pra ver como era. O Júnior me deu janta, emprestou o banheiro pra eu tomar banho, deixou eu montar a barraca por ali e até me emprestou um colchão pra colocar dentro dela. Gente fina pra caramba.

Neste dia pedalei 99 km, e totalizei os primeiros 1000 km desde o começo da viagem. Foram 28 dias, dos quais pedalei 17, numa média de 60 km por dia pedalado. Felizmente até agora eu e a Gaia não caímos nenhuma vez, também as tatuagens que o asfalto me fez em outras pedaladas por aí me fizeram mais prudente. Meu controlador de velocidade é o meu precioso chapéu, quando ele esboça a vontade de sair voando por aí e procurar outra cabeça pra sentar é hora de segurar o freio. Além disso durante o dia ele protege meu cangote do sol, e de noite, com uma leve inclinada de cabeça, protege os meus olhos da luz alta dos carros e caminhões que voltam de Cuba ou de algum outro lugar no meio do meu caminho até lá.

No outro dia ainda filei um café da manhã no posto fiscal. Muita subida pra chegar em Uberaba, dormi lá e segui com destino a Uberlândia, no caminho encontrei outro cara viajando de bicicleta, o seu Valdeci, 51 anos. Ele não tinha um destino certo e tampouco um ponto de partida, a verdade é que ele estava pedalando pelas estradas do Brasil há 30 anos. Sei que isso não pega muito bem pro meu lado, mas devo admitir que achei ele meio louco, doido mesmo. Acho que por alguma razão ele não tem nenhum lugar ou ninguém pra voltar, então ele apenas anda, anda pra não ficar parado. De qualquer maneira ele me pareceu ser uma pessoa feliz. Acho que andar é bom.

Acampei em um posto de gasolina e no outro dia cheguei em Uberlândia. Fui muito bem recebido pela Márcia e pelo Fernando, amigos da mãe de uma amiga minha. Não eram exatamente meus parentes mas me receberam como se eu fosse filho. Fiquei hospedado na casa do Seu Gérson e da Dona Margarida, pais da Márcia, por 5 dias. A Márcia, que é médica, me levou pra conhecer alguns hospitais e postos de saúde da cidade. A experiência foi muito boa. Ainda foi bom pra descansar bastante e comer bem. Abraços pra todos que me receberam em Uberlândia, Arsélio, Tânia, Samanta, Paula, Laura, Estevão e a galera da UFU que me levou pra comer um fondue de chocolate.


Saí de Uberlândia no sábado e depois de subir mais um tanto dormi em um posto de gasolina perto de Paracaíba. A paisagem por aqui já está bem diferente de casa, o cerrado, várias frutas cujos nomes e gostos eu não conhecia. No outro dia cheguei até a divisa MG-GO, um turista pediu pra tirar uma foto da Gaia, ainda bem que ela não é envergonhada. Parei em um restaurante e conheci o Formiga, um caminhoneiro que estava lá esperando a papelada da Receita Estadual. Ficamos conversando, tocando violão e comendo peixe frito - que ele fez questão de pagar - por umas 3 horas. Ele também estava indo para Caldas Novas, ia na casa de uma amiga comer um churrasco e me ofereceu uma carona e um lugar pra ficar. Eu já havia recusado uma carona alguns dias atrás mas essa era irrecusável, carona com direito a churrasco e pernoite... Com muito sacrifício consegui colocar a bicicleta dentro da cabine do caminhão e fomos.

A primeira carona da viagem. Pouco mais de uma hora e foram-se os 75 km até Caldas que eu levaria umas 5 horas para fazer. Economizei algum suor, as subidas eram fortes e o sol também. Compramos uma carne e fomos até a chácara da Esther. Noite gostosa com churrasco, cantoria e boa conversa. De manhã o Formiga seguiu viagem para Goiânia e eu fiquei por aqui para usar a internet e escrever - pois é, fazia tempo que eu não dava notícias, desculpa aí galera. Vi nos meus e-mails que o Goiano, vulgo Alexandre, amigo meu lá da UFRGS me passou uns contatos de familiares dele em Goiás, incluindo o avô dele aqui em Caldas mesmo. Liguei pro seu Sidiney que me recebeu muito bem, meu plano era seguir viagem hoje, mas agora acho que vou ficar uns dias por aqui pra conhecer as águas termais. Meu destino para os próximos dias é Goiânia, Brasília, Chapada dos Veadeiro e Jalapão.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Tá pagando promessa?

Me desculpem por demorar tanto para escrever e obrigado pelos comentários do outro relato.

De Santo Antônio da Platina continuei em direção a Ourinhos. Meu plano era não entrar na cidade e tentar dormir em algum lugar uns quilômetros mais pra frente para chegar até Marília no próximo dia. Como começou a anoitecer antes do que eu tinha previsto decidi ficar em Ourinhos mesmo. Dormi uma noite em um hotelzinho no centro da cidade. De manhã enquanto me preparava para sair encontrei um jornal da cidade que anunciava o VII Festival de Música de Ourinhos que começaria no dia seguinte. Olhei a programação e até fiquei com vontade de assistir, mas ficar tanto tempo parado e pagando hotel não ia dar.

Já estava de saída rumo a Marília quando um motoqueiro encostou do meu lado. Ele tinha reparado na bicicleta carregada e veio me perguntar para onde eu estava indo. Ele me olhou alguns segundos e... "Cara eu te conheço... Léo, o que que você tá fazendo por aqui?" Era o Mário. Mário? Que Mário? Aquele... ele tinha viajado de bicicleta comigo com o Quim o Victor e o Capiaul até Guaraqueçaba no ano passado, e eu nem sabia que ele estava morando em Ourinhos. Fomos almoçar e depois ele me convidou pra ficar uns dias por lá pra conhecer a cidade e curtir o festival de música.

Chegando na casa dele descarreguei a bicicleta e saímos pedalar um pouco pra eu conhecer a região, depois de mais um pneu furado - dessa vez não o meu - voltamos. De noite comemos um churrasquinho com alguns amigos dele. No Domingo assistimos a abertura do Festival de Música, uma apresentação muito boa da Orquestra de Sopros Brasileira. Na segunda feira o Mário ligou pra um jornal de Ourinhos e fui até lá fazer uma entrevista. De noite mais Festival de Música com direito a chorinho e tudo mais. Já tarde da noite enquanto tentavam achar explicações para alguém querer ir de bicicleta até Cuba, Mário cantarolando Belchior surgiu com essa: "Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez no meu guidão".

Ganhei de presente do Mário uma pastinha pra guardar as matérias de jornal, ela foi muito útil pra conseguir um pouso mais pra frente. Queria sair na terça de manhã, como o dia estava feio adiei pra quarta. Quarta também amanheceu chuvosa então acabei saindo só na quinta-feira. Tive o azar de pegar o inverno mais chuvoso de Ourinhos dos últimos 50 anos e a sorte de estar bem acomodado na casa do Mário e da dona Cristina. Foram 5 dias em Ourinhos, 5 dias de boa música, comida na mesa, cama macia e boas conversas.

No caminho entre Ourinhos e Marília não havia nenhuma cidade ou posto de gasolina na beira da estrada, levei umas frutas e um sanduíche para comer. Lá pelas duas da tarde vi um senhor sair de carro de um sítio, parou do meu lado e fez o questionário básico que respondo pelo menos umas 3 vezes ao dia... de onde vens... para onde vais... estás pagando promessa... és doido... ele saiu, andou alguns metros, parou o carro, me chamou e então fez uma pergunta diferente: "Você já almoçou hoje? Não? Então vamos ali na minha casa que eu vou preparar um almoço pra você". Me levou até a casa dele e pediu pra sua mulher esquentar uma comida pra mim. Comi, conversei um pouco com eles, Tirei uma foto com ele a mulher e os dois netos e segui viagem.

Cheguei em Marília às 7:30, foi o dia que mais pedalei até agora, 95km, aos poucos estou me acostumando com o peso da Gaia. Encontrei um ciclista que me disse que uma galera se encontrava pra andar de bicicleta pela cidade toda quinta às 8:00, e talvez alguém podia me dar um pouso. Fui até o local que ele me indicou mas por causa do frio só tinha 4 pessoas. Não dei sorte de conseguir pouso mas os caras me levaram até os Bombeiros. Lembrei que o Mário tinha me dado a idéia de ir no Corpo de Bombeiros pra ver se eles me hospedavam.

Cheguei lá e perguntei se eu podia armar a barraca no gramado, o soldado disse que tinha uma ordem de São Paulo que não era pra deixar ninguém de fora da corporação dormir no quartel, mas ele ia perguntar ao superior mesmo assim. O sargento disse que por ele eu poderia ficar mas tinha que ter autorização do tenente, superior dele. Nesse momento já me falaram pra entrar. Mostrei a pastinha com as matérias de jornal pra ver se os convencia a ajudar um pobre viajante.

Acho que surtiu efeito, logo eles me perguntaram se eu já tinha jantado porque tinha sobrado uma comida lá. Depois da janta a autorização que veio lá dos céus - do superior do superior do superior- caiu sobre mim e eu pude ficar. O sargento Figueiredo, falou que eu não precisava dormir na barraca, que tinha cama lá e eu podia ficar no alojamento dos soldados. Tomei banho e quando saí ainda comi uma pizza com refrigerante que eles pediram. Conversei bastante com o Carlão, o Sargento Figueiredo, um psicólogo gente fina pra caramba. Dormi no alojamento dos sargentos.
De manhã já me chamaram pra tomar café e ainda pude usar a internet pra checar os e-mails. O Fred, o cara da comunicação, ligou pra vários jornais contando sobre a viagem. Depois de um tempo chegou um cara de uma TV de Marília pra fazer uma reportagem comigo, mais um do Diário de Marília e outro do Jornal da Manhã. Depois das reportagens me convidaram pra almoçar lá também. É claro que não recusei. Ainda conversei bastante com o cabo Machado e o Rafael (foto) antes de sair. Gostaria de deixar aqui meus agradecimentos a todos do Corpo de Bombeiros de Marília, onde fui muito bem tratado, e dizer que na minha opinião, apesar de terem seus superiores, vocês são todos pessoas superiores.
Depois de 70 km de estrada ruim cheguei em Lins e fiquei na casa do Daniel e da Ana, pais do Arthur, amigo da faculdade. Lá também fui muito bem recebido, me senti como se estivesse em casa. O Daniel me deu várias dicas de mapas e de logística como dizia ele, achamos um caminho alternativo pra chegar em São José do Rio Preto sem precisar pegar a BR-153, que é muito ruim pra pedalar porque não tem acostamento. Eles me convidaram pra ficar um dia a mais em Lins. Depois de dormir até meio dia comi um almoço muito bom em uma churrascaria da cidade. Daniel me levou até Sabino pra conhecer a região e me mostrar onde eu pegaria a balsa no outro dia. Fui jantar na casa do Paulo, amigo do Arhur, onde assisti a final do vôlei masculino do Pan.
Como a balsa de Sabino até Sales saía todas as horas ímpares eu tinha planejado sair de Lins às 10:00 pra conseguir pegar a balsa das 13:00. Como sempre acabei atrasando e saí só às 10:50, precisava correr pra conseguir fazer os 30km até Sabino. No caminho algumas ladeiras, vento contra muito forte e mais ou menos na metade do caminho percebi que meu pneu traseiro estava furado e esvaziando lentamente. Calculei que se eu parasse pra remendar o pneu não ia dar tempo mesmo, então continuei até onde deu, parei enchi rápido o pneu sem consertar e fui mais um pouco. Naquela luta contra o relógio só me rendi quando faltava 5 minutos pra balsa sair, 3 km pra chegar lá e percebi que o pneu não esvaziava tão lentamente assim e já estava no chão de novo. Não ia dar mesmo. Já exausto do esforço desci da bicicleta, descansei, tomei água, comi o sanduíche que a Ana preparou pra mim e continuei empurrando a bicicleta até a cidade.
Fui até um posto pra arrumar o pneu, fiz 3 remendos e não teve jeito de consertar a câmera, tive que usar a reserva, quando terminei o serviço já era 2:50, tinha que correr pra pegar a balsa das 3:00. Chegei lá ainda uns 3 minutos antes e nada da balsa, fui perguntar pra algumas pessoas que estavam ali perto "Ih, a balsa não veio e nem vai vir hoje não, quando tá ventando forte assim ela não vem porque é perigoso". Pois é, o mesmo vento, contra novamente. O jeito foi montar a barraca ali perto, cozinhar um miojo e esperar até o outro dia. Às 09:00 peguei a tão esperada balsa, apenas 30 minutos de travessia. O operador da balsa veio conversar comigo e tocar violão, o figura tocava violoncelo e cantava em japonês. Segui até São José do Rio Preto, fui no Bombeiro tentar arranjar um pouso mas dessa vez não deu certo, acho que os superiores daqui não são tão superiores quanto os superiores de lá. Depois de uns 10 dias sem gastar nada pra dormir tive que me render a um hotelzinho de rodoviária novamente.


(Link da matéria do Diário de Marília, depois vou escanear o do Jornal da Manhã pra colocar aqui também)
http://www.diariodemarilia.com.br/site/ver_noticia.aspx?CodNoticia=6263

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Agora a sós com a Gaia

Antes de tudo gostaria de agradecer a todos que têm me incentivado e me apoiado nessa viagem. É muito bom saber que não estou sozinho, e sei que esse apoio será fundamental nos momentos de perrengue e desânimo que tomara não sejam muitos.
Desde o último relato em Castro seguimos para o Canyon Guartelá, muito melhor agora pelo asfalto, já estava enjoado de comer pó, e a estrada é bem pouco movimentada também. O mesmo rasgo lateral no pneu furado do dia anterior que consertei meio na base da gambiarra me deu problema e me obrigou a jogá-lo fora e usar o reserva. Fora isso o dia de pedalada foi bem tranquilo, foram só 45 km.
Chegamos na entrada do Parque Estadual do Guartelá já de noite e ficamos em um camping bem próximo. Como o camping era bom e muito barato resolvemos dar um dia de descanso para as magrelas e ficamos por lá conhecendo os arredores do Canyon. À noite fizemos o típico jantar de gala dos viajantes de bicicleta, macarrão com salame, milho enlatado e leite condensado de sobremesa. Teve direito até a uma fogueira usada pra ferver a água pro chimarrão, que por sinal acabou ficando com um terrível gosto de fumaça porque a tampa da panela improvisada com uma caixa de leite pegou fogo.
No dia seguinte levantamos acampamento e entramos no parque para visitar a cachoeira da ponte de pedra e o mirante. Pedalamos mais 25 km até Tibagi, a melhor cidadezinha do Brasil segundo o prêmio da editora Abril e Guia Quatro Rodas. Noite bem dormida no hotel super luxo Kakito.
A parada seguinte foi em Telêmaco Borba de onde o Bernardho voltou pra Curitiba. Tive que comprar um pneu novo pra não me incomodar mais. No hotelzinho em que ficamos hospedados o atendende conhecido como Sapinho, às vezes nos chamava de lado e dava suas dicas.. "não deixe nada de valor no quarto, leve junto", "se alguém pedir para trocar uma nota de 10 ou 50 não troque", "não fique marcando". Segundo ele a cidade estava cheia de malandros na ocasião, a responsável pelos novos habitantes é a ampliação da já gigante empresa de celulose que movimenta a cidade. Nos mais de 50 km de estrada no caminho até Curiúva só se via pinus e eucaliptos, o
chamado deserto verde do reflorestamento, segundo os entendidos o plantio de eucalipto seca poços artesianos de até 30 metros de profundidade e causa degradação do solo impedindo que outras plantas cresçam, com isso, há o extermínio de variedades vegetais e muitas espécies animais ficam sem alimento. Para se produzir um quilo de madeira são necessários 350 litros de água, além do uso de um aditivo químico altamente poluente que já contaminou a maior bacia pesqueira do Oceano Atlântico, localizada no sul da Bahia.
Chegando em Curiúva nos perguntaram se estávamos lá para o Rodeio, não era bem o caso, como o João também não é um amante da música sertaneja e dos rodeios passamos essa. Até aquele dia o tempo estava ótimo, mas foi nosso barbudo nos abandonar e começou a chover. Vou deixar a barba crescer também pra ver se a sorte começa a me acompanhar. Por causa da chuva resolvi ficar um dia a mais em Curiúva e o João voltou pra Curitiba de lá mesmo, apenas 4 horas de ônibus me separavam de casa, tentador, mas sinto que não é hora ainda, acho que tem muita coisa me esperando pelo caminho. Agora é só eu e a Gaia nesse mundão de meu Deus (pra quem não teve o prazer de conhecê-la, a Gaia é a minha linda bicicleta, já soldada e de sapatinho novo... não fica com ciúmes Li).
No outro dia a chuva não tinha parado, na verdade tinha piorado, mas eu já de saco cheio de ficar parado resolvi ir até Ibaiti mesmo assim, a pedalada me rendeu uma bela duma dor de garganta... é, as mães sempre tem razão... "se agasalhe, não saia na chuva" Em Ibaiti também fiquei um dia parado por causa da chuva, no segundo dia abriu o tempo e eu vim até Santo Antônio da Platina, de onde estou escrevendo. Amanhã cruzo a primeira dessas linhas imaginárias que separam quintais embandeirados, a divisa PR - SP. Meu roteiro para os próximos dias será Ourinhos, Jacarezinho, Marília, Lins, São José do Rio Preto, Frutal, Prata e Uberlândia. Quem tiver algum amigo ou parente nesse caminho que se disponibilize a me propiciar um cantinho pra dormir por favor me escreva, será muito bem vindo. Valeu e até a próxima...

terça-feira, 10 de julho de 2007

Pára um pouquinho, solda um pouquinho, mais 50 km


Era uma manhã ensolarada de sábado, dia perfeito para pedalar. Uma parte já meio esquecida de mim não via a hora desse dia chegar, outra parte mais presente nestes últimos dias queria adiar esse momento ao máximo. Devo admitir que um certo medo tomava conta de mim. Evitava pensar que estava saindo de casa naquele dia sem saber ao certo por onde ia para voltar em não menos do que 6 meses. Não consigo imaginar o que passaria pela minha cabeça se eu não estivesse acompanhado por esses dois grandes amigos e também não quero pensar por ora o que será de mim quando a solidão me encontrar. Não quero nem falar aqui sobre o triste momento das despedidas. Sem mais delongas vou aos relatos.

Logo no primeiro dia de viagem a bicicleta sofreu a primeira avaria. Em uma das tantas subidas íngremes da empoeirada Estrada do Cerne senti um molejo estranho na roda traseira. Parei pra dar uma olhada e não pude acreditar no que vi, meu quadro estava quebrado. Provavelmente devido aos solavancos da estrada esburacada somado ao excesso de peso (63kg: bicicleta + bagagem) o quadro havia se quebrado bem próximo ao eixo traseiro. Estávamos a 12 km da próxima cidade e o sol estava se pondo, o jeito então era empurrar. Depois de uns 2km de caminhada encontramos um boteco. Fui obrigado a cumprimentar e até abraçar quase todos os bêbados presentes para poder chegar até o dono do bar. Perguntei se havia alguma oficina mecânica por perto e ele me apresentou o homem que estava ao meu lado, José, o soldador. Seu José nos levou até sua casa e nos ofereceu um lugar para dormir, é claro que aceitamos. No outro dia de manhã fizemos a solda (ainda bem que minha bicicleta não é de alumínio) e partimos depois de uma cantoria com seu José e seu violão improvisado com corda de pesca. Numa das nossas paradas em outro bar para tomar um refrigerante um dos vários bêbados amigáveis olhou para o Bernardho e como se eles se conhecessem de longa data foi logo se achegando e falando, "Oh barbudo, você por aqui, meus parente tão morrendo tudo, por isso que assim..." Nosso Barbudo foi presenteado com um caloroso abraço com direito até a um beijo no pescoço. Nesse dia acampamos em um terreno baldio na cidadezinha de Abapan. Pela manhã vi que havia soltado uma solda no meu bagageiro dianteiro, por sorte tinha uma oficina bem perto. Fui atendido por um garoto muito simpático, Rai, que não devia ter mais do que 12 anos. Enquanto ele conversava com o nosso Barbudo, não pôde deixar de reparar na quantidade excessiva de bloqueador solar que este exibia na orelha, sem muito rodeio falou, "Cara tira esse protetor da orelha que isso já tá começando a me incomodar".
No terceiro dia, já sem tantas ladeiras pelo caminho chegamos cedo em Castro, tive um pneu furado que consertei meio na gambiarra. O tão esperado primeiro banho propriamente dito, tomado em chuveiro e não em rio só veio nesse dia também.

Vou tentar na medida do possível atualizar o blog semanalmente. Abraços, Léo.
video

sábado, 7 de julho de 2007

Uma Breve Explicação

A idéia de conhecer Cuba surgiu do meu interesse na medicina comunitária e de família aliado à minha curiosidade de saber como é viver em um país socialista. Inicialmente eu pensava em chegar até lá pelos modos convencionais, mas quando meus primeiros contatos para a realização de um estágio formal não se mostraram muito promissores, somado à minha preguiça para essas coisas burocráticas, cheguei a pensar em desistir da idéia.

Outra velha vontade surgida de outras pedaladas por aí, era a de fazer uma viagem mais longa pela América Latina, de bicicleta é claro. Então em janeiro deste ano enquanto eu pedalava até Ouro Preto tive a grande idéia de juntar as duas coisas e fazê-las logo antes que o 'juízo' me viesse à cabeça. O velho sonho de viajar pela América Latina agora com um destino, Cuba.

O plano inicial é pedalar de 4 a 5 meses para chegar no mínimo até a Venezuela podendo esticar até o México de acordo com o tempo de viagem. Pretendo encurtar a permanência dentro do Brasil pegando caronas onde for possível, isso para poder ficar mais tempo em outros países aprendendo espanhol e conhecendo outras culturas. Depois ficarei de 2 a 3 meses em Cuba e retorno em fevereiro para o recomeço das aulas da faculdade.

Abaixo algumas coisas que saíram na mídia sobre a viagem:



Gazeta do Povo impressa (acima):
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/esportes/conteudo.phtml?id=676205

Gazeta do Povo online:
http://canais.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?id=675644 (vale dizer que nunca foi a minha intenção querer imitar o Comandante)

Rádio CBN:
http://www.cbncuritiba.com.br/index.php?pag=noticia&id_noticia=10619&id_menu=103